O que será?
Cláudio Russo | Claudio Russo | 13/02/2012 22h36
Como será amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser! O mês de janeiro feito um raio evoluiu por 2012, tanta chuva, quanta pressa e fevereiro nasceu ensolarado como se fosse o melhor verão de nossas vidas à espera daquele canto harmonioso: É hoje o dia! Da alegria...
Eu queria saber agora o que será... Do nosso carnaval, o show de cada escola, suor, amor e fantasias... Em um ano que se mostra um dos mais difíceis para as escolas de samba do grupo especial do Rio de janeiro, cobertor curto, puxa daqui, estica de lá, e as contas que enlouquecem a qualquer um presidente. Neste ano parece que o motivo maior da folia, aquele que por muito tempo vem perdendo espaço, esquecido e como um surdo de primeira apanhando sem chorar: O samba há de trazer a redenção.
Quem é você que brilha neste carnaval? Pierrô, colombina, quem sabe arlequim ou um grande amor, e por falar em amor! Onde anda você sambista? Aonde vão seus pensamentos e devaneios para a semana de Momo. Parece que foi ontem que desaguamos neste encanto de riso para ser criança neste olhar. Se pudesse encontrar o gênio desta fonte diria: Eu quero a bem da verdade a felicidade em sua extensão. E Por que não... acreditar?
Quem avisa amigo é! Nem tudo foram flores no período de preparação para o carnaval de 2012, e como brasileiro gosta de uma obra, dá cidade do samba à Avenida Marques de Sapucaí os canteiros foram inúmeros, até de sobra... Gerando dificuldades, muito trabalho e desafios a serem vencidos em busca do dia de graça.
Foi sob este quadro de questionamentos e descobertas que os ensaios técnicos desfilaram na passarela, o boom pré-carnavalesco, quem não viu? Logo alguns trataram de eleger as campeãs deste período. Acho que os ensaios são de suma importância, mas não determinantes, como se fossem a antecipação de vitórias ou derrotas. Algumas mais, outras um pouco menos, mas me parece que todas as agremiações percebem a necessidade de ensaiar o canto da comunidade ao som de suas baterias, o chão de cada escola sendo valorizado deve compartilhar em importância com o conjunto de alegorias e fantasias, afinal depois que o visual virou quesito nada mais justo que enfeitar o coração de confete e serpentina e viajar: Me leva meu sonho ao meu barracão...
Vamos combinar, falta muito pouco para o rei desta folia declarar aberta a festividade, está chegando a hora de entrar de corpo e alma na avenida e vibrar bravo, bravissimo... Mas antes que os chorões comecem a professar mil desculpas, embalados neste som dolente, vamos nessa minha gente para as apostas neste carnaval? Quem você indica como real candidato ao título? Quem poderá ser a grande surpresa do ano? E as decepções? Luxo ou lixo, quem sabe o bom, bonito e barato apresente ao novo sambódromo o seu verdadeiro dono, o povo do samba e que você sambista não precise mais clamar liberdade pelo amor de Deus ao reencontrar seu lugar de destaque na festa profana: A maior festa popular do mundo.
A difícil arte de julgar
Cláudio Russo | Claudio Russo | 31/01/2012 01h44
Ah! Meu bom juiz, meu bom juiz não bata este martelo nem dê a sentença, antes de ouvir o que meu samba diz... O sucesso do inigualável Bezerra da Silva me auxilia para adentrar num campo extremamente complexo que margeia razão e emoção, como o equilibrista em cima do arame ou o bêbado que bambeia pra lá e pra cá, este campo que permeia intermináveis discussões e a sabedoria popular já eternizou em frases como: Quem sou eu pra te julgar; a justiça tarda, mas não falha; a justiça é cega, entre outras tantas frases comuns ao cotidiano popular, e eu resolvi chamar de a difícil arte de julgar.
A você senhor jurado de carnaval, a quem caberá decidir campeãs e rebaixadas, você senhor juiz que definitivamente deve torcer por alguma agremiação, pergunto: como julgar sem se deixar levar pelos mistérios do coração? Como julgar em igualdade de condições escolas com inúmeros títulos da mesma forma que recém-chegadas ao grupo principal e por fim como abstrair e esquecer milhares de torcedores que guardam calados, por anos e anos, o grito de campeã!
O grande dicionarista brasileiro Aurélio Buarque de Holanda Ferreira definiu julgar como: Formar opinião ou juízo crítico sobre; sentenciar; decidir como juiz ou árbitro... O que deixa claro a necessidade de imparcialidade no curso do resultado de tal julgamento. No universo de treze escolas do grupo especial do carnaval da cidade do Rio de Janeiro cinco não lograram serem campeãs o que torna mais difícil o papel de isenção do jurado, levando a obrigação de encarar como verdade absoluta o julgamento apenas no que se vê e no que se ouve e não no nome do grêmio julgado, nada, além disto, poderia ser justificado, passado recente, histórias de glória, grandes carnavais, não estão sendo julgados. A nota não deve remeter ao pretérito! E sim ao tempo presente e só.
Na decisão do júri deve-se evitar o pré-julgamento o qual principalmente o quesito samba enredo possa sofrer. A memória popular contem inúmeros casos de sambas desprezados, ou pouco comentados no período pré-carnavalesco, que proporcionaram grandes desfiles e até mesmo campeonatos consagradores em um passado recente.
Senhores jurados tenho 40 anos de idade, tempo que sedimentei o meu amor ao samba, me dedicando como compositor em fazer parte do maior espetáculo a céu aberto do planeta, eu tenho certeza da dificuldade de suas missões, como também a certeza que a responsabilidade deve estar acima de tudo, consciente da grandeza de suas funções eu vos peço: Não bata este martelo, nem dê a sentença antes de ouvir o que meu samba diz...
O Meu sonho de ser feliz...
Cláudio Russo | Claudio Russo | 17/01/2012 18h52
O ano de 1995 começou enchendo de esperanças este coração que tem mania de amor, a Portela tinha o melhor samba do carnaval, um enredo voltado às raízes do samba e o barracão entusiasmava aos olhares mais incrédulos. Neste momento após ter sido bi-campeão de samba enredo em 93-94 minha maior expectativa era realizar o meu sonho de ser feliz... O que faltou combinar com a realidade é que havia no caminho da majestade do samba uma dama da mais alta nobreza: Imperatriz Leopoldinense.
Mais Vale um Jegue que me carregue, que um camelo que me derrube lá no Ceará é mais uma prova de que o samba pode e deve exercer sua função de instrumento de resgate de nossa cultura, cumpre assim a escola de samba o prazer de ensinar a história do Brasil e ninguém melhor que a Imperatriz para brindar o povo com uma passagem até então esquecida, ou melhor, deixada de lado pelos grandes compêndios, ave Rosa Magalhães.
Domingo de carnaval, 26 de fevereiro, desfilei ao lado de Zé Luiz, Neném, Isaac, Ari do Cavaco, Eli Penteado, entre tantas outras cabeças coroadas portelenses, foi um desfile à felicidade, um reencontro, um momento de catarse na praça da apoteose... Saímos da avenida direto à primeira barraca que encontramos a fim de brindar aquele dia.
Segunda feira, 27 de fevereiro, nesse dia resolvi ficar em casa, curar minha ressaca, fazer planos para a quarta de cinzas e ver os desfiles da noite. Estava tudo correndo como combinado quando chega a "sexta de segunda" na madrugada de terça feira, Preto Jóia parecia em estado de graça, Ronaldo Ylê e Braguinha em perfeita sintonia, isso eu percebi logo no esquenta da escola: a Rainha de Ramos ecoando como nunca, lindo, de arrepiar, mas esse foi apenas o começo de um desfile magnífico, que vinha para honrar os melhores anos desta grande escola. Anos de Arlindo Rodrigues, Max Lopes, Viriato Ferreira e agora Imperatriz de Rosa Magalhães em carros bem acabados, o estilo barroco em verdadeira comunhão com o carnaval.
O sono que a noite toda me chamava pra dançar nos seus braços e me levar pra cama aos poucos caiu no samba e cantou pra subir ao ver as sombrinhas em verde e dourado subindo e descendo, ora abertas, ora fechadas, quase sempre girando... Esse parece ser um dos mais marcantes trabalhos de Fabio de Melo nos longos anos de sucesso, que revolucionaram na década de 90 o quesito comissão de frente, na escola do subúrbio da Leopoldina. E o samba bonito, denso e marcante, muito mais do que se apresentava no período pré-carnavalesco, cumpriu com louvor a sua função, o auge foi ouvir as terceiras, da bateria de mestre Beto, recortando como se zabumbas fossem no refrão do meio: Balançou não deu certo não, pois não passou de ilusão...
Iludido, Balançando de um lado ao outro fui levado pelo encantamento e a preocupação ao ver uma alegoria mais requintada que a outra, sem falar nas fantasias: damas da corte, nobres do segundo império, mouros e sambistas. Foi um luxo ver Maria Helena e Chiquinho flutuarem pela passarela, harmonia correta, a certinha de Ramos fez escola, nessa época tinha em sua equipe muitos dos grandes diretores do quesito hoje em dia, olhos iluminados esqueci por algo mais de uma hora do meu sonho de ser feliz e viajei com a Imperatriz Leopoldinense em cada detalhe do seu carnaval até adormecer.
A terça feira gorda pareceu mais longa do que às 24 horas permitem, lenta, insossa, quase que cruel com a minha ansiedade pela quarta de cinzas, a quarta feira de apuração do grupo especial. Eis que no grande dia resolvi fazer diferente dos outros anos, não fiquei em casa acompanhando pela televisão, nem mesmo pensei em ir para Marques de Sapucaí, fui para Madureira, mais exatamente para o Portelão em busca do tão sonhado título, peguei uma cadeira na quadra lotada e fiquei do lado do palco, sozinho, fazendo as anotações na tabela de quesitos.
Foi um sofrimento sem fim, nota a nota uma disputa acirrada, comemoração por cada dez, lágrimas pelo meio ponto que insistia em faltar, é a conta não deu, não deu!
Sem querer comparar os desfiles posto entender que arte em sua maior essência não deva ser comparada e sim admirada, aprendeu nesse dia meu coração que tem mania de amor o porquê do canto tão emocionado dos sambistas de Ramos: Quem não sabe o que é o amor, não sabe o que é ser feliz, Quem não sabe o que é amar, não sabe o que é Imperatriz...
Abram alas que eu quero passar...
Claudio Russo | Claudio Russo | 05/01/2012 11h58
A Comissão de frente de 2012 pede passagem e inicia o seu desfile, depois de muito treino, escolhas, ajustes e ensaios, eis o grande dia, quem sabe um grande ano? E nesse desfile de doze meses o que será que estará reservado para o nosso carnaval? Quais serão os destaques e as decepções, quem atravessará literalmente o samba, se soubesse dizer acho que usaria o trecho do famoso samba tijucano e cantaria: é segredo não conto a ninguém...
Quando comecei a compor, no fim da década de 80, ainda era mantida, na maioria das escolas de samba, a tradição de colocar senhores da velha guarda de fraque, bastão e cartola para abrirem o cortejo, eu sempre vi nesta prática a manutenção do samba como essência da resistência desta expressão cultural, nossa expressão... Os tempos mudaram, a festa mudou e evoluiu para uma grande peça de teatro musical ao vivo, não quero dizer que evolução neste caso signifique desenvolvimento ou melhora e sim uma transformação contínua e natural.
A caminhada das comissões de frente até chegarem à encenação atual passou por várias fases, posso dizer que dos quesitos em julgamento foi o último a alcançar o destaque característico de um espetáculo, desde mulheres e homens negros e altos seminus até fantasias que lembravam mais um destaque de alegorias, Joãosinho Trinta inovou, Luiz Fernando Reis revolucionou, Fernando Pinto quebrou paradigmas e a Vila Isabel da presidente Russa foi perfeita em 1990. Até hoje não consigo entender como uma comissão com mulheres grávidas simbolizando o direito à vida, no enredo direito é direito, possa perder pontos, coisas da difícil arte de julgar, como não entender a demonstração do primeiro direito que um ser humano possa ter?
O ano de 1994 foi marcante para as comissões: Renato Lage trouxe um tripé como elemento cenográfico auxiliar a coreografia e a Portela tornou-se a última escola a abandonar o binômio Velha Guarda e Comissão de frente aderindo a pseudomodernidades. Vila Lobos deve ter se orgulhado dos sapos e a sodade do cordão, no bailado da Mocidade Independente em 1999; Eu mesmo fiquei orgulhoso de viver o século do samba em verde e rosa neste ano musical, um trunfo mangueirense, quanto talento, tantos sambistas, foi de tirar o chapéu.
Em determinado momento veio após o carro abre alas, em algumas escolas de samba mais de uma comissão desfilou no mesmo carnaval, se não me falha a memória a Beija Flor já entrou no palco fixo do carnaval com três comissões, se bem que apenas uma seria julgada e por fim algumas vezes teve como elemento cenográfico o abre alas, lembro do ano de 2007 na Renascer de Jacarepaguá quando jacarés desceram da frente do carro alegórico, uma surpresa para todos.
Nos dois últimos anos uma revolução tomou conta do setor, vestidos foram trocados em segundos e os olhos expectadores não conseguiam entender o segredo da troca de roupas ao ar livre, cabeças caíram abandonando o resto dos corpos em cima de uma plataforma suspensa para ficar na altura do olhar dos jurados: mágica, mistério, Unidos da Tijuca de Paulo Barros...
A Comissão de frente do ano de 2012 pede passagem e inicia o seu desfile: Como será o amanhã? Pra quem já foi Popó, criança astronauta e amolador de faca; viveu uma crise existencial sendo metade noivo - metade noiva; nas águas foi escafandrista; usou sombrinha, leque, máscara e asas; uniu mendigos no luxo do lixo, voltou a pré-história com o tambor, Mary Shelley viu seu personagem sambar, Camões navegou num barquinho de papel e Moises levitou até o Monte Sinai; foi malandro subindo o morro e arauto tantas vezes que é melhor não perder a conta! Foi colibri, guerreiro, louco, saltimbanco, palhaço, o sorriso de Niterói; a Portela na essência maior do que é ser portelense foi: Bretas, Monarco, Ari do Cavaco, Wilson Moreira, Casemiro, Carioca, Jorge do Violão, Marcos, Edir Gomes, Zeca Pagodinho, Galo, Norival Reis e Jair do Cavaquinho...
A cada ano a espera por uma grande surpresa, uma coreografia inovadora é total,
são segredos e mais segredos guardados a sete chaves, os profissionais do meio se desdobram para alçar destaque, conquistar o público e as notas máximas, tantos são os nomes inspirados a frente das comissões que me reservo o direito de não citar nomes, evitando um possível esquecimento, muita sorte a todos, feliz ano novo e abram alas para folia que as comissões de frente preparam-se para o show...
E a arte do gênio João...
Claudio Russo | Claudio Russo | 19/12/2011 09h41
Neste sábado último, a Presidente Dilma Rousseff, mandou divulgar duas notas em razão de grandes perdas para nosso país: O Carnaval do Brasil fica mais triste sem a alegria e o talento de Joãosinho Trinta... É uma perda enorme para vida cultural brasileira... em relação ao consagrado ator Sérgio Brito. Perdas no campo da cultura que deixam grandes lacunas, nos restando a esperança de acreditar que seus legados sejam preservados e que o talento dos jovens encontre amparo em obras tão marcantes para construção do futuro da cultura no Brasil.
Tive a honra de conhecer Joãosinho Trinta no ano de 2001, estava eu compondo para um dos melhores enredos que já havia lido. Gentileza, O Profeta do Fogo, na Acadêmicos do Grande Rio, me deu o privilégio de estar próximo ao gênio criador de João, uma sinopse de abordagem direta que facilitou muito meu trabalho. Posteriormente, na fase de pesquisa de minha monografia, percebi ser este artista do carnaval, alguém a frente do seu tempo, a verdadeira essência da criatividade e da inspiração construídas pela revolução salgueirense, se fosse falar dos grandes valores que a Academia do Samba nos deu estas letras nada seriam.
Em 2007 na Beija Flor ganhei uma camisa com a ilustração dos anos dos campeonatos Nilopolitanos e mais uma vez constatei a grandeza do Maranhense que aqui chegou para se dedicar a dança e fez uma cidade inteira dançar em virtude de sua magia, seus carnavais, seus campeonatos. Pentacampeão, feito inédito, fato marcante.

João deu vida as alegorias, reinventou as fantasias e buscou novos temas para nossa festa, o amigo Neguinho da Beija Flor ontem afirmou com propriedade: conheço dois carnavais: o antes e o depois de João... Este ano com o poema encantado do Maranhão o carnavalesco Joãosinho volta a sua grande campeã.
Vai menino, vai descansar com o Rei de França em sua corte, Vai descubra de vez o segredo de Salomão e se por acaso deu Leão foi mais um truque do seu reinado, eu sei o quanto você chorou com as lágrimas de Vovó e na criação do mundo... a tradição Nagô ficou mais perto de nós. Vai que o sol da meia noite raiou na grande constelação e se das trevas fez-se a luz o seu destino é brilhar, estrela...
Por ora me acerco da obra A Peça que falta... do pensador mineiro Geraldo Eustáquio pra tentar traduzir o porquê de tanto amor a arte:
Amor é a peça que falta
no quebra-cabeça da vida
a que resolve todos enigmas,
revela todos os mistérios,
remove todos as contradições...
(...)A peça que dá sentidos a todas as demais...
João se acaso puder me ouvir, nesta sua nova caminhada em busca da luz, eu lhe peço obrigado: por todos os dias de carnaval e por toda forma de alegria, Ratos e Urubus larguem minha fantasia...
A sua alma tem negra vocação...
Cláudio Russo | Claudio Russo | 12/12/2011 18h03
Vibra óh Minha Vila a sua alma tem negra vocação... Segue e reencontra seu caminho de glória ao consagrar a união Brasil-Angola no maior espetáculo da terra, retoma história que é tão sua e desce colorida para mostrar no carnaval, como já anunciava em 1968, Martinho José Ferreira, o negro Rei Martinho da Vila, desfilam o moderno e o tradicional...
Em algo mais que trezentos anos de tráfico negreiro, Angola contribuiu com a maior das parcelas do contingente escravo trazido ao Brasil, algo próximo a quatro milhões, homens e mulheres que virão roubadas a sua dignidade, a sua liberdade e o seu poder de decisão sobre seus corpos e seus filhos. A cada negreiro que levantava velas do porto de Luanda eram mais mortes e sangue derramado no "tenebroso mar" atlântico, quem aqui chegava estava por encontrar mais crueldade, novos costumes capitaneados pela tirania e pela eterna vontade lusitana de fazê-los desumanos. Neste quadro de horror os fortes, posto que é preciso ser para enfrentar sem se render, pouco a pouco foram marcando este chão com suas raízes, sua África do semba nos legou o
samba e a Unidos de Vila Isabel segue avante á percorrer um território que conhece tão bem, e é por isso que seu povo aclama: incorpora outra vez Kizomba...
E segue na Missão... De semear humildade, unindo povos, unindo talentos como os de quem faz obra tão oportuna, retrato de samba moderno e tradicional na junção de momentos grandiosos da parceria campeonissima. É mágico ver elementos novos sendo trazidos ao samba enredo, para quem sabe iluminar novas cabeças coroadas de nossas escolas, falo do contracanto que de forma alguma macula ou deturpa a essência do samba e sim vem engrandecer, inovar... Melodia e letra inspiradas, algo assim com requinte de beleza, quem sabe o sonho de um sonho... de André Dinis, Arlindo Cruz, Evandro, Leonel e Arthur.
O tambor africano ecoando nos tambores da vila, excelência de percussão em busca do ritmo tão íntimo de nossos ancestrais, há de soar histórias, luta e libertação... a saga aqui perpetuada ao quebrar correntes e manter nossos os elos de amor.
Muito mais que uma homenagem, um resgate é preparado para a manhã de 20 de fevereiro de 2012, segunda feira, resgate este para marcar a influência positiva da cultura dos povos Bantos em nosso país, em nossa formação, algo para orgulhar todos descendentes de Matamba, Lunda, Cabinda entre tantos filhos de Angola aqui recebidos. E que a força de Zambi, que é Pai, jamais abandone escola tão enraizada na cultura Afrodescendente. Semba de lá que eu sambo de cá... O sonho vive...
Argumento...
Cláudio Russo | Claudio Russo | 02/12/2011 19h19
Hoje é dois de dezembro, dia pra ser comemorado, cultuado, dia pra sambar, valorizar o ritmo e a dança tão importantes para todos nós brasileiros. Samba é instituição nacional, corre em nossas veias, às vezes sangra a herança das senzalas, por vezes clama liberdade de expressão. É pensando no samba que tantas provas de amor me deu que resolvi refletir. Por muito tempo me julguei livre de qualquer tipo de preconceito, talvez por inocência, quem sabe por pretensão, não sei, mas na semana passada no ensaio técnico da Renascer de Jacarepaguá não tive como resistir, fui preconceituoso, e mais, me vi radical neste propósito, era pra me sentir envergonhado, mas como se o que vinha a minha mente naquele momento era o extrato da canção do mestre Paulinho da Viola: Mas não me altere o samba tanto assim...
Eu sou de um tempo em que, por exemplo, a Portela tinha Rainha e Madrinha de bateria e víamos Nilce Fran e Edicléia das Neves competindo em pé de igualdade, perdoem o trocadilho, com o talento dos seus pés na arte de dançar o samba sem qualquer favor ou forçar a barra. Hoje em dia virou status ser rainha, existem vários fatores que interessam mais que o samba no pé na hora da escolha, pelo menos é o que parece ser. Tá legal eu aceito o argumento... Que é importante trazer para escola alguém que tenha mídia, beleza, carisma entre tantos outros requisitos, porém por que não colocar a celebridade, ou o projeto de... em cima de um carro alegórico encenando, ilustrando e trazendo beleza a festa
Tudo parece uma grande farra, uma bolsa de valores ou de apostas de quem será a próxima aquisição, e o samba onde fica, será que o samba, sambou? Como profetizou a São Clemente na folia de 1990. E continuam criando cargos de musas, destaques de chão, madrinha de tudo quanto é ala, mas, por favor, na ala de passistas não mexam, isso não! Pois daí vem o meu preconceito.
Semana passada estava eu no ensaio supracitado quando percebi que a responsável pela ala das passistas, a Rose, sambista de verdade, colocava algumas novatas para testes e isso acho ser bastante prudente para que haja um determinado critério nas escolhas. Pois bem me parece uma candidata a passista que não tinha qualquer intimidade com o bailar do samba, mesmo sendo muito bonita... Neste exato momento me veio a pergunta: Quem foi que disse que ela sabe sambar? Preconceito meu, e antes que me apedrejem assumo meu sentimento, não é necessário saber sambar para desfilar, lógico que não, eu mesmo não sei... Gostaria de dizer agora sem preconceito ou mania de passado... Mas não posso, tomara que a beldade não leve a mal, mas tenho certeza que ela ficaria melhor em qualquer outro setor, olha que a rapaziada está sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim!
O argumento do mestre portelense me auxilia nesta confissão: passista deve saber sambar! Isto é básico. Por fim não quero dizer que a magia dos pés sambando esteja condenada, claro que não! Percebo que diversas escolas vêm fazendo grandes trabalhos, nesta área, de resgate e manutenção das alas de passistas e acho que o espaço e a importância destas devem ser sagrados. Perdoem meu preconceito... Mas quando os pés deslizam e a cintura parece ser de mola é algo tão fascinante que me vejo radical em defesa da arte. Samba é democracia, como também continuidade, então vamos combinar: continuamos fortes no propósito de embalar os cordões por estas avenidas de todo Brasil e vamos admirar e preservar a quem não dança, levita sobre o chão... Salve o Samba nosso de cada dia, salve os passistas, sambistas, amantes de tão nobre arte popular, axé.
O Mais triste dos belos sambas
Claudio Russo | Claudio Russo | 11/11/2011 11h25
A Escola se preparava para o desfile: tensão, euforia, temor e alegria em profusão naqueles momentos que antecediam o começo tão aguardado. Veio a grande ordem do presidente Mauro e a voz de Adilsinho começou a ecoar o esquenta da Em Cima da Hora, era o carnaval de 1999 e o mais belo dos tristes, ou melhor, o mais triste dos belos sambas tomou conta da Avenida do Marques.
Marcado pela própria natureza é verso que inicia de forma apoteótica "Os Sertões de Edeor de Paula", resumo fiel à obra de Euclides da Cunha e um marco na história dos sambas enredo em virtude do poder de síntese até então jamais visto. Podemos perceber bem definidos na primeira parte do samba os dois capítulos que principiam nas letras do imortal: A Terra e o Homem e na segunda do samba um breve encadeamento de versos que relatam com propriedade o retiro de milhares de sertanejos em torno do arraial de Canudos.
Contam alguns amigos que a comunidade de Cavalcante estava muito empolgada para aquele carnaval de 1976, muito pelo extraordinário samba como também, pela qualidade das alegorias vista por quem ia ao barracão nos dias que antecediam o desfile. Pois bem as alegorias eram grandes e altas demais para passarem no portão de saída do barracão e foi dada ordem de quebrar uma parede, neste momento tornou-se drama o enredo da Em Cima da Hora já que toda edificação que comportava seu barracão era tombada pelo patrimônio histórico e não podia ser derrubada. As alegorias não puderam participar do desfile e a tristeza fez seu concerto como uma grande tragédia acompanhada pela dolência do samba.
Naquele sábado de carnaval eu estava no setor 01 à espera da escola que aprendi a gostar e por motivos particulares não poderia desfilar, naqueles cinco minutos intermináveis a Sapucaí me fez chorar e quase todo primeiro setor como num efeito dominó, que não sei de onde começara, chorava também, Adilsinho cantava Oh Solitário sertão... E o calor de toda multidão levava ao abraço, algo coletivo. E pensar que algumas vozes do bairro salientam que durante a disputa para o carnaval de 1976 este samba não era nem o favorito, somente ganhando força para ser campeão quando um dos fortes concorrentes, exatamente na semifinal, foi retirado em apoio ao grande samba que permanece na memória do povo carnavalesco. Foi no século passado... Mas parece hoje que um dos mais belos sambas de todos os tempos, o mais belo dos sambas tristes, me fez feliz ao chorar de alegria.
O Nome do Samba
Claudio Russo | Claudio Russo | 25/10/2011 09h40
Um movimento que surgiu com mais força há algo em torno de 10 anos vem ganhando muito espaço nas construções dos sambas enredos e para o carnaval de 2012 não será diferente, a afirmação exaltada do nome da escola ou de sua comunidade em versos, como tentativa de reavivar o orgulho de ser de determinada agremiação. Historicamente, percebe-se com os primeiros desfiles oficiais que os nomes e sobrenomes do "Samba" foram paulatinamente separando-se da temática utilizada pelos Blocos Carnavalescos que adotavam nomes ligados a brincadeira da folia de momo e não propriamente a seus redutos.
Como exemplo marcante deste processo, quando as Escolas procuravam afirmar a sua identidade, temos a Portela: Os sambistas da Vai Como Pode, ao tentarem renovar a licença para o desfile de 1935, foram questionados pelo delegado Dulcídio Gonçalves sobre o nome da Escola de Samba, que lhe parecia um tanto vulgar, e a necessidade de mudança para algo que tivesse mais pompa. A pompa que se adequasse a uma "grande escola de samba" foi a proposta do delegado para se tornar o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela e imediatamente aceita pelos sambistas da famosa estrada do bairro de Oswaldo Cruz.
Imaginar Papagaio Linguarudo, Três Mosqueteiros ou De Língua não se Vence atualmente é algo que foge de um simples entendimento, porem ratifica o processo de litígio entre as Escolas e os Blocos Carnavalescos, como se não fizessem parte de uma mesma origem, acho que em nossos dias, salvo engano, somente a Vizinha Faladeira resiste ao processo de mudança de nomenclatura. Bravo... Vizinha!
E as imagens de orgulho próprio e amor exacerbado para o carnaval de 2012 começam com a debutante Renascer de Jacarepaguá que há de cantar a plenos pulmões: Pintor da alegria calor da emoção pintou Renascer no meu coração... o povo da querida Portela não se faz de rogado e afirma com todo o brio: Madureira sobe o pelô... Tem capoeira, Olha a deusa de Ramos chegando com Sou Imperatriz, sou emoção meu coração quer festeja...
Padre Miguel exalta Portinari e faz bossa, pois é por ti que a Mocidade canta... A bateria do mestre Tiago Diogo recebeu singela homenagem e vem feroz no ritmo do tigre de São Gonçalo, salve Porto da Pedra. A comunidade Nilopolitana se enche de poesia e desfila pela Canção do Exílio de Gonçalves Dias para reafirmar que onde canta o sabiá, hoje canta a Beija Flor...
O pessoal lá do bairro da princesa faz diferente e muito bem feito por sinal quando traz para "cabeça" do samba a beleza dos versos: Vibra Oh minha vila
a sua alma tem negra vocação... Fazendo um sassarico em seu grande musical a preto e amarelo de Botafogo entoa: Bravo!!! A São Clemente vai passar... Respirando olimpíadas a União sobe ao pódio da alegria cheia de medalhas: A Minha Ilha é ouro é prata... e o cordel branco encarnado deu samba apaixonado vejam e escutem: Salgueiro é amor que mora no peito com todo respeito o rei da folia....
A Estação Primeira celebra o encontro com uma das maiores instituições culturais cariocas e decanta: Não dá pra conter tamanha emoção Cacique e Mangueira num só coração.... Outro encontro de suma importância traz a asa branca e o pavão do borel, salve o rei do sertão, viva Tijuca... A Grande Rio se supera e diz: Eu "tô" sentindo que chegou a nossa hora... Quem me viu chorar, Vai-me ver sorrir...
Sorria meu povo os sambas estão aí exaltando sua gente, seus bairros e suas comunidades, o carnaval de 2012 tem tudo para ser inesquecível e marcando definitivamente uma tendência que pode ter nascido quando nomes como: Rainha das Pretas, Depois Eu Digo e Cada Ano Sai Melhor deram lugar para os Unidos, União, Acadêmicos e tantos outros que marcam o samba de determinado reduto, salve as escolas de samba do Rio de Janeiro.
Seminário Encontros de Carnaval
Claudio Russo | Claudio Russo | 03/10/2011 10h54
O SRZD- Carnaval promove a partir desta terça-feira, 04 de outubro, o seminário Encontros de Carnaval na PUC-RJ. E por que discutir o carnaval? Esta pergunta cada vez mais em voga traz alguns questionamentos necessários e, por isso, fundamentais para entender a quantas andam o pensamento em relação a nossa grande festa, e acima de tudo trazer novos elementos ou resgatar antigos em favor da conciliação do binômio tradição-evolução.
Carnaval é manifestação e festa popular? É sim, e também é concurso, competição e campeonato! Desde 1932 com a promoção do primeiro desfile de escolas de sambas pelo diário O Mundo Esportivo que um manancial de valores, talentos, regulamentos e agremiações fazem ecoar o samba da minha terra. Samba que desfilou com a Rainha das Pretas de Madureira, a Depois Eu Digo do Estácio de Sá, A Última Hora do morro da Favela e a Lira do Amor de Bento Ribeiro entre tantas outras maravilhosas escolas.
É por ser festa e competição que o carnaval das Escolas de Samba permanece em movimento continuo em busca do equilíbrio, é por isso que devemos discutir, opinar, trazer ao público em geral informações da escola de samba: da escolha do enredo até o dia de graça no desfile oficial, e se for preciso ser radical na defesa de nossa cultura, a nossa luta de resistência, eu serei como bem afirmou José Ramos Tinhorão na revista Manchete de 23 de junho de 1979 atual como se agora fosse: Ora, eu sou um estudioso da cultura popular que se preocupa em não ver misturada a cultura brasileira autêntica, com a cultura superposta que nos chega através da importação de tecnologia aplicada na área de lazer. Eu fui levado a uma posição radical pela radicalização que vem de fora, que faz com que o brasileiro seja minoria no Brasil (...) Eu como estudioso da cultura popular, consciente dessa situação, tenho de ser radical, porque entendo que todo soldado empenhado na luta de libertação nacional não pode transigir.
Aprendi nestes vinte dois anos de samba que a troca de ensinamentos, que ocorre em um evento como este, é de um aprendizado singular, um momento para refletir e construir o futuro da maior festa popular do mundo. Nesta próxima sexta feira, 07 de outubro, estarei lá mediando e discutindo com todos em prol do carnaval das escolas na mesa: Não entendi o enredo deste samba. Por mais oxalá que estes encontros de carnaval tragam novos elementos para congraçar o pierrô e a colombina, o mestre sala e a porta bandeira, o erudito e o popular, peço àqueles que não puderem acompanhar que aguardem as noticias que irão fervilhar na semana vindoura, um grande abraço.
O que faz um diretor de harmonia?
Cláudio Russo | Claudio Russo | 20/09/2011 18h30
Alô diretor de bateria, alô diretor de harmonia, tá na hora, olha a Portela na área... A voz de David Correa começa a ecoar como se fosse ontem aquele carnaval de 1981, Das Maravilhas do Mar fez-se o esplendor de uma noite, o terceiro ano seguido que um oceano azul e branco encantava meus olhos e literalmente alas transformavam-se em ondas e ondas... Brumas portelenses.
Acho que desde esse tempo, ainda na infância comecei a perceber a beleza de uma harmonia bem feita, vozes e ritmo em consonância plena. É com esta lembrança viva que me vem a pergunta: O que faz um diretor de harmonia?
O manual do julgador da LIESA para o carnaval de 2011 "é claro":
Harmonia, em desfile de Escola de Samba, é o entrosamento entre o ritmo e o canto.
Para conceder notas de 08 a 10 pontos, o Julgador deverá considerar:
A perfeita igualdade do canto do Samba-Enredo, pelos componentes da Escola, em consonância com o "Puxador" (Cantor, Intérprete do Samba) e a manutenção de sua tonalidade;
O canto do Samba-Enredo, pela totalidade da Escola;
A harmonia do samba.
Pois bem senhores harmonia entre ritmo e canto não tem nada haver com a evolução da escola de samba na pista de desfiles. Mas ainda existem alguns que defende veemente, sem conhecimento de causa, infelizmente, que possíveis claros, ou como dizem, buracos na avenida determinam perda de pontos preciosos. Percebo que hoje diretores de harmonia estão muito mais ligados com outro quesito: a evolução; então porque não diretores de evolução?
Conforme o manual citado: Evolução, em desfile de Escola de Samba, é a progressão da dança de acordo com o ritmo do Samba que está sendo executado e com a cadência da Bateria.
Continua a pergunta: O Que faz um pseudo-diretor de harmonia? Muito mais um diretor de evolução! Hoje, principalmente nos ensaios técnicos, ao ver a evolução de uma escola de samba consigo lembrar com clareza três aspectos: instrução de ordem unida típica da vida em caserna, aulas de ginástica e uma boneca que minha irmã teve, famosa nos anos 80, a bate palminha da estrela. É um festival de movimentos rítmicos, muito característico das torcidas no maracanã e tão alienígena ao samba, será que diretores se tornarão personais trainer em detrimento do Samba reconhecidamente como dança, cultura de raiz e resistência.
É importante salientar que nem tudo são pêsames ao samba, e algumas grandes escolas trabalham e lutam por um desfile mais solto e menos engessado, algo mais natural e mais leve para o desfilante, sem perder a consciência de que uma evolução bem conduzida, sem grandes correrias e espaços abertos, desculpe a redundância, possibilita notas máximas.
Acho que por conhecimento de causa e por entender de perto aquela comunidade de Nilópolis, vejo na evolução da Beija de Flor um exemplo a ser seguido, não que seja um único exemplo, longe disso, existem outros mais, porém é inegável a qualidade do canto, do ritmo e da evolução nilopolitana, e neste caso dois fatores são preponderantes o amor à escola pela comunidade e a qualidade técnica na condução do desfile por sua direção de carnaval. Tenho certeza que este assunto não se encerra por aqui, já percebo o surgimento de infinitas indagações para um novo texto, mas por enquanto gostaria muito de saber o que faz um diretor de harmonia?
O Sorriso aberto do singelo menestrel
Claudio Russo | Claudio Russo | 08/09/2011 11h17
Em muitas discussões de samba um assunto que parece do gosto de muitos e por isso tornou-se freqüente gira em torno da pergunta: quem foi o maior? Ou o melhor compositor de sambas de enredo de todos os tempos. Acho até que este primeiro posto deve ser algo próximo a um ponto pacífico, a unanimidade "inteligente" que leva Silas de Oliveira, o poeta da Serrinha a ser considerado algo como um hors concours, mais quem depois dele, é aqui que começam as acaloradas conversas, quem deveria ser citado, quem?
Quero salientar que tal prática faz parte da memória popular, é do costume nacional procurar os melhores em cada área, e não é de meu interesse corroborar com a competição e sim fazer jus e tentar trazer a lembrança algumas figuras esquecidas, porém com obras marcantes, neste texto trago alguém que enquanto Jovelina Pérola Negra cantava: Ai que vontade que eu tinha de ter um carango joinha e morar na Vieira Souto ou em Copacabana... Eu pensava ai que vontade que tenho de conhecer quem escreve assim. Compositor de tantos sucessos, mas tão pouco lembrado, sob a alcunha de Guará, poeta na acepção da palavra e que provavelmente a vertente de sucessos com sambas conhecidos como de meio de ano apagou, se é que possa ser apagada uma história tão brilhante embora tão rápida, a sua passagem iluminada pelos sambas enredos.
Vamos sublimar em poesia a razão do dia a dia pra ganhar o pão... Em 1983 me perdoe a ala discordante não houve melodia mais bonita na Avenida Sapucaí, a comunidade de Cavalcante, orgulhosa de possuir um rol de sambas enredos respeitadíssimo, balançava com o trem 33 (o famoso Japerí) tão retratado no enredo e cantava a pleno pulmões: e chegar lá em Dom Pedro a tempo de bater cartão... Não é mole não... Samba consagrado pelo povo e pela imprensa especializada, premiando a querida Em Cima da Hora, com o Estandarte de ouro de melhor samba do grupo B do carnaval de 1984.
Em 1985 Guará retorna com outro grande samba, outra linda comunhão entre melodia e letra, compondo para os Acadêmicos do Engenho da Rainha no enredo Não existe pecado do lado de baixo do Equador, uma letra moderna, irônica e inteligente, uma verdadeira leitura do cotidiano, algo como uma marca na obra deste mestre da música, é mais uma vez coroado com a premiação do jornal O Globo, um feito sensacional para época e até hoje marcante como nos versos: Que os anjos digam amém aqui tem tudo amor e nada tem, Vem meu Engenho querido mostrar que tristes doutrinas trouxeram pra cá... Retrato de um Brasil gigante pela própria natureza com mãos e pernas atadas pelo fantasma da ditadura.
E o singelo menestrel prosseguiu em sua relação intima com o sucesso, Ganga - Zumba Raiz da liberdade deu todas as condições para aquele menino que assobiava Beethoven e Chopin mais preferia Noel, fazer um samba de beleza incomum e deixar a comunidade do samba no bairro do Engenho da Rainha mais uma vez radiante com tão inspirada composição: Quando o leiloeiro apregoou vai haver uma princesa no leilão não sabia que vendia quem daria luz um dia a raiz da libertação, Liberdade... E a palavra com sabor de mel adoçou os corações carnavalescos naquele ano de 1986, mais um prêmio para o grande poeta, algo até então inimaginável, terceiro estandarte de ouro consecutivo, a glória...
Senhores assim foi Guará, o Guará que não conheci pessoalmente e que deve estar por ai andando... Andando de violão em bandoleira com saudade da Ribeira, quem sabe escrevendo às estrelas com seu sorriso aberto, o amigo Nivaldo lá de Cavalcanti me contou uma vez durante um ensaio da querida Em Cima da Hora que esta canção surgiu no dia em que Guará foi preso por
vadiagem e insistia em convencer o policial militar que não era um vagabundo e sim um compositor, o policial descrente vociferou para o poeta: se você é compositor te dou meia hora para compor um samba, pouco tempo passou, Guará chamou o guarda e cantou: É Foi ruim à beça, mais pensei depressa, numa solução para depressão fui ao violão, fiz alguns acordes, mas pela desordem do meu coração não foi mole não, quase que sofri desilusão... E o guarda libertou o poeta, por enquanto só me resta agradecê-lo como também a todos os seus parceiros de música e perguntar, como na canção gravada pelo Almir, o Guineto, Dalila, cadê Guará?
Os Ecos de agosto...
Claudio Russo | Claudio Russo | 26/08/2011 10h08
Todo ano parece ser a mesma coisa, chega o mês de agosto e a maioria das disputas de samba enredo começa. Quem não conhece fielmente o processo que leva cada escola ao tão sonhado dia de graça em seu desfile, pode até achar que o carnaval ou a sua preparação tem início nesta fase, mas sabemos que as escolas de samba no Rio de janeiro não param, acaba um carnaval começa o outro e aí vem por ordem: renovação com a equipe artística, contratação de novos profissionais, busca de enredo e patrocínio, elaboração e entrega da sinopse e as eliminatórias de sambas, sem falar que nesse ínterim os barracões trabalham a desmontagem das alegorias, e assim chegamos ao curso deste agosto de 2011.
Com grande parte das escolas em efervescência pelas eliminatórias percebemos que o carnaval de 2012 há de reservar bastantes surpresas, me perdoem a utilização da temática do enredo da Grande Rio, surpresas amplamente ligadas à superação, Existe a situação dos barracões para ser resolvida, a passarela do samba permanece em obras de ampliação, temos 13 escolas no grupo especial com a projeção de duas quedas para o grupo A, mas também soa com extremo bom gosto a escolhas dos enredos e os primeiros sambas concorrentes disponibilizados possibilitam vislumbrar a superação através do samba, a trilha sonora dos desfiles.
Quando comecei no samba nos longínquos preparativos para o carnaval de 1989 dizia-se que um bom samba seria no mínimo 50% para um grande desfile ao conduzir uma boa harmonia de vozes, abastecer a bateria e contribuir para uma boa evolução dos componentes, com o passar do tempo e a "espetacularização" do carnaval essa importância caiu bastante, porém de alguns anos para cá observo um movimento de retorno as origens, algo até então tímido, mas animador e isso passa pelo entendimento dos dirigentes de que um samba mal escolhido pode levar o trabalho de um ano ao fracasso e as notas refletem essa escolha.
Nos fóruns as discussões a cerca dos sambas concorrentes continuam de forma acalorada, às vezes agressiva, às vezes desrespeitosa, alguns torcedores se excedem em sua defesa ao samba do amigo, chegam ao ponto de achar que o samba do amigo é sempre o melhor em qualquer ano, enredo ou escola e isso é até natural do torcedor, mas sabemos que ninguém, nem mesmo o amigo compositor vai ser sempre o melhor ou ao menos tão bom que não haja um ou outro concorrente em condições de enfrentá-lo. Eu torço pelo meu time em qualquer situação, campeonato de bola de gude inclusive, mas sei que meu time não é melhor que o Barcelona, até gostaria, mas não é. Por enquanto ficamos na expectativa de que outubro traga boas novas, grandes sambas e grandes discussões, é bom salientar que uma safra de grandes sambas, assim como tem este ano a Imperatriz Leopoldinense, não é o fim primordial da disputa, toda escola precisa sim de um grande samba, às vezes vencedor de uma safra maravilhosa, às vezes filho único de uma disputa desnivelada, mas acima de tudo um grande samba.
A presença de Deus nos sambas tem sido tão impropriamente utilizada que nos cabe ouvir o que dizem alguns clássicos
Claudio Russo | Claudio Russo | 15/08/2011 12h38
Duas noticias veiculadas nos últimos dias pareceram-me bastante propicias para iniciar uma discussão sobre a fé e o uso da mesma no carnaval, e por que não trazer luz ao nosso debate. A primeira relatava: Advogado que proibia imagens sacras em desfiles é preso e a outra noticia afirmava: Seminário debate religiosidade no carnaval, manchetes distintas e a um primeiro olhar sem qualquer elo que as unissem, mas há sim um fundamento, não no advogado entregue a lei penal brasileira, mas no que motivou ações e mais ações durante anos na defesa da arquidiocese do Rio de Janeiro em detrimento da cultura e popularização da fé através dos desfiles das escolas de samba. Senhores a história esta cheia de exemplos em que a intolerância, por muitas vezes religiosa, levou nações e povos à guerra, derramou sangue inocente e ceifou gerações inteiras do seu futuro.
O carnaval como festa popular remonta um passado distante e não obstante parece ser tipicamente brasileiro, tem suas origens muitas vezes ligadas a Roma antiga, o Egito e a festa de Isis e outros tantos festejos que postulam a primeira posição na raiz de nossos desfiles, de certo ao ser incorporado às tradições cristãs passou a marcar uma época de festividades que aconteciam entre o Dia de Reis e a quarta-feira anterior à Quaresma. É por isso que todo ano a data do carnaval muda, há, portanto, uma ligação com a religião cristã que ao menos sugere uma proximidade, ou uma possibilidade de dialogo e negociação, nada disso, ledo engano a festa da carne não pode encontrar-se com a purificação do espírito.
A presença de Deus em nosso dia a dia pode ser percebida em um infinito número de situações alem das religiões e seus templos, alem do credo e da fé inerente a cada ser humano: no despertar de um novo dia, nas ondas que vão e vem com a maré; na comunhão de uma família ou no sorriso de uma criança ele está presente, Independente de quem ou como seja esta força chamada Deus o imaginário popular cria formas e maneiras de exaltar e guardá-lo na memória, nos corações e mentes.
Nos sambas enredos a evocação ao altíssimo tem sido por muitas vezes utilizada, o que nos cabe ouvir o que dizem alguns clássicos do carnaval carioca e paulista, sambas que trazem as histórias de um povo e histórias de vida que através do sincretismo, do artesanato e da pintura aproximam o homem, efêmero e terreno, das graças do divino. Afinal um cem números de vezes desfilaram na avenida com passagens ou letras completas exaltando religiões e Deus, muitos desses enredos remetem a cultura Afro descendente e particularmente a raíz Yorubá, é por isso que Olorum, Olodumarê, Xango e Ogum aproximaram se tanto do povo sambista. Vale também salientar que outras religiões já passaram pela avenida dos desfiles, como a Budista, a Judaica e a Muçulmana entre outras. Vejo que difundir e respeitar; esclarecer e preservar devem caminhar lado a lado para que o entendimento evite a intolerância, afinal só muda o nome, Deus é um só.
Em relação a segunda manchete é de extremo bom gosto, salutar e importante que aconteçam seminários, debates, discussões acaloradas sobre os caminhos de nossa grande festa, principalmente quando trata-se da religiosidade, elemento presente em nossa raça brasileira, fiel exemplo da mistura que proporcionou tantas manifestações singulares por meio de nosso povo.
Nota: achei por bem fazer citações a sambas que nos últimos dez anos no Rio de Janeiro trouxeram elementos agregadores das religiões e a fé em Deus estampada em versos, esta minha lista não termina nem extingue a relação de sambas relacionados à fé na época citada, faça a sua lista, participe.
Paraíso do Tuiutí 2001: "Pra agradecer o dom da vida, o mais sublime do de Alá..."
São Clemente 2002: " Ao longe abençoada pelas mãos do criador..."
Unidos da Tijuca 2003: " Obatalá mandou chamar seus filhos..."
Estação Primeira de Mangueira 2003: " A Vontade de Deus é a lei da verdade..."
Beija Flor de Nilópolis 2004: "Se Deus me deu vou preservar..."
Unidos do Viradouro 2004 - Estácio de Sá 1975 : " Oh Virgem santa olhais por nós..."
Tradição 2004 - Portela 1984 : "Okê, Okê Oxossi..." Eparrei Yansã..."
Beija Flor 2005: " Em nome do Pai, do Filho..."
Unidos de Vila Isabel 2005: " Olocum abre os caminhos do mar, pra minha Vila passar..."
Império Serrano 2006: "Imperiano de fé não cansa, confia na lança do santo guerreiro..."
Mocidade Independente de Padre Miguel 2006: " A Vida que pedi a Deus..."
Beija Flor 2007: " Olodumarê, O Deus maior, o rei senhor..."
Acadêmicos do Salgueiro 2007: " Odoyá Yemanjá, Saluba Nanâ Eparrei Oyá..."
Unidos do Porto da Pedra 2007: " Liberdade pelo amor de Deus..."
Beija Flor 2008: " Quem foi meu Deus que fez do barro poema..."
Unidos da Tijuca 2009: " Horizonte de meu deus, Oxalá..."
Império Serrano 2009: " Oguntê, Marabo, Caiala e Sobá..."
Imperatriz Leopoldinense 2010: " A Imperatriz é um mar de fieis no altar do samba em louvação, é o Brasil de todos os deuses..."
E eles verão a Deus...
Cláudio Russo | Claudio Russo | 25/07/2011 17h49
Em nosso texto anterior, comentamos aspectos relevantes ao quesito samba-enredo e que foram alvo de discussão em seminário. Aproveitamos a busca de enredos tipicamente culturais, tão em voga para o ano de 2012 e, principalmente, a escolha de dois pintores de renome, exemplos de talento, abnegação e luta pelo ideal, pelas duas escolas da Zona Oeste da Cidade Maravilhosa (Mocidade Independente de Padre Miguel e Renascer de Jacarepaguá) para homenagear a construção poética que a Unidos da Ponte abrilhantou o Carnaval de 1983. Um grande enredo que louvou os artistas do pincel, um grande samba guardado na memória de tantos sambistas...
Vejo o mundo assim uma escala de notas, um mosaico de sons, sustenidos, bemóis, ecos relativos na infinitude da música; alguns percebem o mundo em movimentos e ritmo, passos e coreografia, são poetas dos gestos e tornam visível a música através da mágica dança; mas todo aquele que deu vida e forma às cores "... viu o mundo assim uma aquarela...", criando na tela as matizes da perfeição e descobriu "... a imagem do amor e a verdade da vida...". Era o ano de 1983, ano de grandes sambas e alguns para sempre "...Quando o pranto se fez canto na razão do dia a dia..."
Muito antes do "alô, povão, agora é sério!" ecoar sucesso na avenida, o "alô, povão, meritiense!" passava ao largo da grande mídia radiofônica. A Mocidade cantava: Ó Morena morada do sol e da lua... E a madeira, das arquibancadas, corroída pelo tempo preparava-se para seu último ato, mas será que alguém percebeu a sensibilidade do "...hoje a natureza canta e a musa se encanta para festejar..." A criação de traços, cores e telas. Eu me deixei levar pela leveza harmônica dessa melodia sem par, obra-prima em que os compositores receberam o beneplácito dos deuses da inspiração. Não venho com isso insinuar que o samba tenha sido ignorado pelo povo carnavalesco, de forma alguma, porém é do âmago do ser humano julgar o todo pela parte, o conteúdo pela forma, o contexto pelo nome e, humanos que somos, por vezes deixamos de dar a devida atenção a quem a mereça.
Um painel de simplicidade emoldura a beleza desta construção, algo inédito para meus ouvidos tão acostumados com os sons do Carnaval no despertar de minha juventude, rara melodia em tom maior que chega a emocionar como se em tom menor fosse. Percebe-se que muito mais que uma ode a grandes pintores, o enredo busca transparecer a força que leva estes artistas à criação, força que ilumina a imaginação daqueles predestinados a eternizarem através do pincel momentos de grande valor, e isso está bastante claro e poético na letra do samba. É válido salientar que a Unidos da Tijuca, no mesmo ano em questão, viajou pela arte concebida para valorizar a natureza e a matéria criada pelo ser supremo, uma "Ponte" que sempre rendeu lindos sambas como: "...Brasil devagar com o andor que o santo é de barro..." Afinal, quando o mar murmura e o dia sorri, o criador e a obra viajam ao encontro daquele que é capaz de realizar a maior das pinturas: Deus. "E Eles verão a Deus razão de todo seu imaginar..." e eles viram a Deus, vendo o mundo assim uma escala de notas na infinitude da música, parabéns a Mazinho, Ambrósio e Renatinho. Com toda minha admiração e respeito pelo samba antológico.
Nota 01: Saliento que com raras exceções somente conseguimos grandes sambas a partir de grandes enredos. Eu só consigo lembrar com boa vontade de dois ou três casos que fogem à regra e surgiram grandes sambas de enredo menores, porém o peso da criação recai exclusivamente sob os pais da criança, nós compositores. Ontem, gravando o samba da Querida Nenê de Vila Matilde para o concurso do Carnaval de 2012 no estúdio do grande intérprete do Salgueiro Leonardo Bessa, pude escutar a opinião do Mestre Reginaldo Bessa, que chegou a um grande exemplo da exceção: Domingo da União da Ilha, samba antológico em um enredo bom, leve mais um tanto inocente, que rendeu um desfile marcante.
Nota 02: Alguns críticos afirmam que reedições não deveriam ser feitas por não funcionarem. Vai o meu agradecimento a Unidos da Ponte, Unidos de Lucas, Império Serrano e ao Império da Tijuca, entre outras agremiações, por presentearem o Carnaval com reedições fantásticas e contrariarem os críticos de plantão.
Nota 03: Aos saudosistas, posto que me vejo por vezes como tal, lembro que sambas bons e ruins sempre existirão. Faça você mesmo sua análise, escute os novos e os antigos sambas e acima de tudo tente entender o processo evolutivo do ritmo que faz parte de um paradigma maior, referente a todo espetáculo. Fechar os olhos para o processo e gritar aos quatro cantos que o bom é, somente, o que desfilou ontem, não passa de ignorância.
Em que pese a polêmica, qual é o peso do samba?
Claudio Russo | Claudio Russo | 15/07/2011 15h16
Em debate realizado na última semana no auditório das Faculdades Helio Alonso em Botafogo (FACHA) entre compositores, imprensa, pesquisadores e sambistas em geral, na tentativa de descobrir melhores formas para o julgamento do quesito samba-enredo e quem sabe trazer propostas consistentes para tal, chegou-se a um questionamento: porque não atribuir ao quesito o peso 02? Participando da mesa como compositor convidado e representando o SRZD-Carnaval ao lado de nomes como André Diniz, Jeferson Lima, Dudu Botelho e Luis Carlos Magalhães, fui um dos que levantaram esta possível proposta e sinto-me na necessidade de ampliar esta discussão, oxalá trazer elementos atenuantes e agravantes de utópica decisão.
Desde o primeiro campeonato de escolas de samba, promovido pelo diário "O Mundo Esportivo", que o samba, e depois samba-enredo, adquiriu caráter de ator principal na grande festa do Carnaval carioca. Podemos dizer que muito antes do histórico ano de 1932, já se ouvia a melodia deste ritmo tão intimamente ligado com a Cidade Maravilhosa, na festa da Penha, na pequena África, pelos becos do Estácio de Sá, no morro de Mangueira, em Oswaldo Cruz e Madureira, formavam-se verdadeiros guetos para que o recém-nascido samba de todos nós ergue-se seus patamares. Nesta época, eram compositores figuras de destaque no cotidiano das escolas ou blocos carnavalescos, personagens geralmente atuantes e que por diversas vezes assumiram posições ligadas à harmonia e à direção musical de suas agremiações.
Pouco a pouco, aquela festa provinciana foi crescendo, assumindo um papel de importância e cooptando elementos de outras manifestações como, por exemplo, as alegorias das grandes sociedades e recebendo o apoio de políticos e figuras influentes não ligadas ao universo do samba. A direção artista passou do caráter artesanal e ganhou qualidade com os Acadêmicos na revolução Salgueirense, chegaram o mercado fonográfico e a televisão e o ritmo vencendo as fronteiras do Rio de Janeiro conquistou todo o país. A cada ano, o disco dos sambas-enredo, lançado invariavelmente no início de dezembro, competia de igual para igual com o disco do Rei Roberto Carlos na lista dos mais vendidos. Era um presente de Natal dos mais desejados. Com o advento da comunhão de todas as escolas do antigo grupo 1-A em torno de uma entidade que viesse trazer o único elemento que faltava para a festa se tornar a maior do planeta, o Carnaval ganhou forma de espetáculo quando a Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa, trouxe a organização, elemento mais que necessário para trazer credibilidade a todo evento. Os horários para o começo e o fim do evento passaram a ser respeitados, o regulamento e a venda de ingressos ganharam critério, o que engrandeceu ainda mais o Carnaval das escolas de samba.
Percebe-se neste pequeno histórico que o Carnaval carioca evolui tempo a tempo, é uma festa que se reinventa a cada momento e possivelmente está aí o seu dom de preservação e continuidade. Não quero com isso dizer que a evolução aqui seja sinônimo de melhora plena ou desenvolvimento. Alguns aspectos tiveram um ganho muito grande e outros não, até mesmo perderam muito de sua importância. Este é o caso de samba-enredo e bateria. Por outro lado, os quesitos ligados à plástica e ao movimento (alegorias e adereços, fantasia e comissão de frente) ganharam muito destaque. Além disso, vivemos uma época em que todas as escolas optam por fortalecer o canto de seus componentes através de doação de fantasias à suas comunidades, o que poderia dar uma guinada para samba e bateria. E aí chegamos ao questionamento: por que tais quesitos perderam tanto espaço? Por que o visual pesa mais que os quesitos de raiz (o chão da escola)? e por que não dar um peso maior para que se recoloque as coisas em seus lugares e, por fim, conseguir um equilíbrio entre os quesitos? Acho que o processo é muito complexo.
Passa pela decadência do mercado fonográfico e aí vai uma sugestão que é baratear os custos da produção e chegar a um valor baixo e competitivo para que o CD seja vendido nas bancas de jornal a preços que façam frente à industria da pirataria. Passa também pela debandada das rádios Am/Fm para os ritmos da moda ( funk, axé e pop-nejo ) em detrimento ao ritmo tão carioca e brasileiro por excelência, e entendo que alguns enredos literalmente não dão bons sambas o que facilita a decadência da qualidade. E, você, o que acha deste cenário? Qual é a sua opinião sobre a valorização dos quesitos ligados ao visual e o que você acha de atribuir peso 02 para os quesitos samba enredo e bateria? Participe desta discussão, dê a sua opinião. Este espaço é nosso.
Mas este ano não vai ser igual àquele que passou...
Claudio Russo | Claudio Russo | 05/07/2011 17h26
Mas este ano não vai ser igual àquele que passou... Parafraseando o sucesso de todos os Carnavais nos salões do Brasil, definitivamente este Carnaval não vai ser igual àquele que passou... E ainda temos duas grandes escolas com enredos indefinidos ou não apresentados para que a nossa conta positiva aumente. É fácil perceber que as escolas continuam abertas ao patrocínio, porém, também pode-se identificar que esse patrocínio não deve colocar em risco a construção de um enredo bem fundamentado e em condições de ser patamar para a beleza plástica, o samba enredo e o apelo popular. E boa parte desse Carnaval promissor de 2012 passa literalmente pelo Nordeste! Ao verificar as seis primeiras escolas do último Carnaval, percebe-se que pelo menos quatro irão de uma maneira ou outra beber naquela fonte. E a plenos pulmões tenho certeza que a Sapucaí irá cantar fatos, lugares e personagens desta região brasileira que sempre rimou com grandes sambas e Carnavais.
Ê Maranhão! Ê Maranhão! Não é um enredo inédito, não é, longe disso, mas tem uma história linda e com a possibilidade de trazer novos elementos cênicos à grande campeã de 2011. É bom lembrar que um dos melhores desfiles da Deusa da passarela na última década foi Agotime, Maria Mineira Naê, em 2001, com auxílio super luxuoso da maravilha de samba composto por Deo, Caruso e Kleber, pois bem, é só aguardar o poema encantado da Beija-Flor de Nilópolis, gol. E a Tijuca, um verdadeiro caso a parte nos últimos anos trazendo a modernidade e o engenho de Paulo Barros a serviço do grande espetáculo, vem de Luis Gonzaga, o Rei do Baião. Alguns pseudo entendidos na matéria carnavalesca torceram o nariz para o enredo da azul e amarelo do Borel e chegam a afirmar que apesar de ser um grande tema, não tem nada a ver com o estilo de Paulo Barros. Vejo que a história de personalidade tão marcante na formação de nossa identidade musical pode proporcionar inúmeros elementos a serem carnavalizados. Acho que o Luiz Gonzaga de Paulo Barros há de ser genial como é o momento do carnavalesco, 2 x 0.
Sou cacique, sou Mangueira... No último mês, fizemos um texto considerando a sinopse do enredo da Estação Primeira e nesta época já percebíamos a grandeza e a essência do tema verde e rosa. É de se louvar a busca de valores tão importantes para nossas raízes e por vezes tão esquecidos, mais um ponto. A Vila Isabel de Kizomba parece muito mais forte quando se encontra em enredos de temática Africana ou Afro-Brasileira. A escola que fez a Festa da Raça já possuía, muito antes do grandioso ano de 1988, um histórico de enredos de fazer inveja e a Angola da Vila e de Rosa Magalhães há de ser coroada com a força da comunidade de Isabel, 4 x 0 é goleada. Mais uma homenagem, mais um grande nordestino e o possível reencontro da Imperatriz e Max Lopes com o seu melhor, a escola que em 2011 surpreendeu, geralmente vem com força quando adota temas de homenagens. Como Max se propõe e tão bem sabe fazer, resta aguardar o amado Jorge da verde e branco de Ramos, pois quem não sabe o que é sambar não sabe o que é Imperatriz... O cordel Branco Encarnado do Salgueiro também alvo desta coluna, no texto anterior, é mais um caso da reação das escolas de samba para o Carnaval de 2012 e mais uma história coroada pela cultura nordestina. Seis escolas e seis grande temas.
Por ti hei de fazer o Portinari mais bonito que esta galeria de artes em movimento já viu, por ti Mocidade, renovada, reforçada e reestruturada, Por ti a comunidade se engrandece para sambar e retomar o caminho de grandes Carnavais. Sete parece número de mentiroso, então, prosseguimos. A São Clemente aposta num grande musical para conquistar o público, receita inúmeras vezes desfilante na avenida e que mais uma vez promete ser uma grande trilha sonora, isso dá samba, isso é Carnaval, show; A Grande Rio foi a escola que mais sofreu e mais se superou no corrente ano e resolveu buscar na força de seus componentes e de personagens que no âmago da adversidade encontraram o caminho para lutar e se erguer, o seu tema em razão do campeonato tão sonhado, isto é superação, são 09 x 0 para grandes ideias, dá um show Caxias. A União da Ilha do Governador, escola que tem evoluído de maneira muito veloz nos últimos dois anos, de maneira que parece ponto pacífico que disputaria as primeiras colocações em 2012, vem com um tema que de longe é o mais Ilha dos últimos carnavais, um tema que de certo só pode funcionar em uma escola leve, que evolua com fluência e que tenha na descontração de seu componente razão para um porre de felicidade, dez nota dez. Romero Brito, o pintor da alegria, dá o tom da folia, mais uma vez Nordeste, mais um grande gênio da pintura, mais uma novidade para o Carnaval, a escola do largo do tanque, Renascer de Jacarepaguá vai debutar no grupo especial com tema de gente grande, e bem a propósito para engrandecer um dos maiores bairros da cidade maravilhosa, cores e formas para todos os gostos. Parabéns à escolha tão interessante, um quadro de beleza a ser pintado em movimento na passarela do samba. Por aqui, temos 11 enredos e pouquíssimos senões, uma ou outra questão de gosto, o que não se discute e tende a levar a temática do Carnaval de 2012 a ser mais voltada à cultura e ao cuidado com enredos dos últimos anos, visto que o quesito é digno de influenciar outros mais. É por isso que Zé Keti soa tão bem, afinal este carnaval não vai ser igual àquele que passou... Eu não brinquei e você não brincou... Até Quarta Feira... Como disse o mestre.
A Resistência do Samba e o Cordel Salgueirense
Cláudio Russo | Claudio Russo | 23/06/2011 11h21
Era o ano de 1959 e um grande encontro antecipava o começo da reação do samba como manifestação popular em detrimento aos temas nada culturais, porém populistas que marcaram as primeiras décadas de desfiles das escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro, ao retornar as suas raízes e contar a história daqueles que enfrentaram a opressão, retrato dos menos favorecidos, a classe oprimida. O artista plástico Fernando Pamplona, depois do Carnaval, foi convidado pelo presidente Nélson de Andrade para elaborar o enredo dos Acadêmicos do Salgueiro para 1960, por ter surgido uma admiração mútua. Pamplona, ao julgar os quesitos escultura e riqueza, deu nota máxima ao Salgueiro, nota maior que a alcançada pela campeã do ano, a Portela. E ficou maravilhado com o desfile dos brancos encarnados do bairro Tijuca. Nelson ficou ainda mais satisfeito com a resposta positiva de Fernando, que veio acompanhada da sugestão de homenagear uma figura da história do Brasil tão importante quanto esquecida.
O grande líder de Palmares provocou uma mudança na galeria dos enredos em louvor a figuras de nossa história, esse quilombo tem magia... Sergio Cabral salienta na obra "As Escola de Samba do Rio de Janeiro" que o Salgueiro em 1955 já havia fugido dos padrões comuns ao Carnaval, quando homenageou o prefeito Pedro Ernesto, que era considerado pelo regime da época como subversivo. Pois bem, esse Salgueiro de vanguarda e de abordagem crítica, Salgueiro de resistência cultural ao trazer acadêmicos para seus quadros e recuperar passagens históricas esquecidas dos livros didáticos, é a mesma Academia que há alguns anos retoma o seu destino e nos brinda com enredos dignos de suas origens.
E por falar em origens, o cordel, fiel errante da literatura popular, é mais um exemplo da resistência da manifestação da gente mais humilde, seus causos e seus heróis ganham a eternidade das letras desde a França dos doze pares até nossos dias, passando por personagens qual Pedro Malazarte, lendas como a do Pavão misterioso e as andanças de Lampião e seu bando pelo sertão. Sobram motivos, faltam adjetivos para se emocionar com o prenuncio de um casamento perfeito quando a cultura do cordel cair no samba do Salgueiro.
Confesso que não sou nenhum admirador de sinopses versadas, posto que leva muitos ao velho copiou/colou de frases feitas em seus sambas, como também impede um pouco a criação ou a procura de versos e rimas pertinentes ao enredo, mas posso dizer que esta vem por demais fazer jus ao cordel, é simples, poética, leve e inteligente, sem nada demais ou algo de menos.
Neste processo de reencontro da escola com a sua essência, deve se salientar o papel de destaque de dois setores que parecem trabalhar em perene comunhão: o departamento cultural que sem esquecer a modernidade, além do seu tempo, que a escola carrega há muito, procura soluções de enredos peculiares, atuais e que aliam conteúdo com o gosto popular; e o gênio da dupla de carnavalescos Renato e Márcia Lage, artistas na acepção da palavra. Confesso que poderia fazer vários textos em relação aos enredos e as inovações que os dois já apresentaram ao grande público carnavalesco, acho que tudo que for falado a respeito é muito pouco em virtude de tamanho talento.
É oportuno também entender que, desde 2007 com Candaces, a escola vem esforçando-se muito para fazer a desmistificação da síndrome do "explode coração na maior felicidade..." que consumiu anos e anos da poesia salgueirense. Esperamos muito a publicação deste Cordel Branco e Encarnado no Carnaval de 2012, que com a devida licença poética poderia chamar-se: A LUTA DE RESISTÊNCIA ALVO VERMELHA CONTRA O MONSTRO ENCARDIDO DA ANTICULTURA. Parabéns a toda escola pelo momento mágico e as possibilidades que se apresentam em trovas e versos.
E aí, você viu o Seu Ary?
Claudio Russo | Claudio Russo | 16/06/2011 14h34
É Ela maravilhosa e soberana... Todos os anos uma emoção distinta e sem explicação, é só Neguinho da Beija-Flor começar a cantar a Deusa da Passarela que o Mar Azul e Branco de Nilópolis desfila a sua grandeza pela Avenida Sapucaí, esta é a escola a ser batida, gigante pela própria natureza, um verdadeiro modelo de organização, requinte e samba no pé.
E falar da Beija-Flor é passear por um universo de adjetivos e talentos reunidos. Poderíamos tecer elogios à direção acertada e sempre voltada para o interesse de sua gente, agora renovada com a eleição do presidente Nelsinho; comentar a beleza do canto, a disciplina e o amor à escola na força da comunidade comandada por Laila; quem sabe até viajar por setores marcantes como a comissão de Carnaval, a bateria da cadência perfeita, a comissão de frente, o casal tão premiado no Carnaval e a voz carismática do intérprete com mais tempo a frente de uma única escola de samba, me perdoem todos estes setores virtuosos, vitoriosos e formadores da grande campeã do Carnaval 2011, mas hoje eu quero falar de alguém que vive há muito tempo mesmo, as vinte quatro horas por dia, o seu grande amor à Beija-Flor: E aí, você viu o Seu Ary?
Era o ano de 1946 e Ary José de Carvalho chegava à cidade de Nilópolis para trabalhar no matadouro. Filho de português e oriundo do bairro da Saúde passou a dormir na casa de sua irmã de segunda a sexta-feira, devido à grande distância para percorrer diariamente entre sua casa e o trabalho. Pouco a pouco foi ficando, fixou residência, criou raiz e construiu uma história de vida singular, apaixonante e apaixonado pelo samba. Ele diz que, naquela época, samba era considerado coisa de vagabundo, muito discriminado pela sociedade. Hoje as coisas mudaram. Também cita o compositor Cabana como um grande nome da escola no começo de tudo, neste trecho acho necessário uma nota de respeito e admiração, por conhecer tão bem a ala de compositores de Nilópolis, ao criador de "O Preço da Traição e Dia do Fico" entre tantos outros sucessos.
Foi a primeira escola a romper a barreira das quatro grandes... Diz seu Ary, todos não acreditavam em nossa escola, éramos aquele pessoalzinho do interior do estado, e o pessoalzinho gostou da vitória, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, tricampeonato coroado em 1978. O Beija-Flor ou A Beija-Flor, até hoje não sei ao certo bem, é uma grande família e seu Ary agradece à Família Abraão David, que tanto engrandece a sua escola do coração, cita os projetos sociais desenvolvidos em virtude do bem comum e afirma no alto de sua sabedoria de 78 anos que o segredo das vitórias da Beija está no coletivo e não no individual. Há 16 anos como presidente do conselho deliberativo, Ary dificilmente fica um dia sem ir à quadra da escola que é ao lado do seu lar. Quem frequenta os ensaios já deve ter visto este senhor de cabeça branca e muitas histórias pra contar, figura de personalidade, fiel aos seus princípios, embora extremamente afável e bem humorado, que eu tenho orgulho de chamar de amigo. Estou entrando mais uma vez na quadra da Rua Pracinha Wallace Paes Leme, e como tantas outras vezes não posso me furtar à pergunta: E aí, você viu o Seu Ary? Muito obrigado...
Nota: Na última semana, a roda de samba terrena perdeu o grande sambista Paulinho Sequência, fundador do grupo de pagode Ferro de Engomar. O samba no céu com certeza há de ficar mais animado, descanse em paz, amigo.
Pergunte ao Criador...
Claudio Russo | Claudio Russo | 08/06/2011 20h38
Aconteceu na semana passada, a conversa na roda animada, o presidente de uma querida escola não se conteve e "mandou": eu não aguento mais enredos de origem africana, eu não, ninguém mais aguenta... Meu amigo perdoe refutar a sua idéia, mas o debate será sempre salutar e, por isso, recorro aos números e à estatística para salvaguardar o pensamento.
É Impossível precisar, mas é ponto de convergência entre a maioria dos africanistas que entre 10 a 12 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, cerca de 280 etnias aportaram em terras tupiniquins: Haussas, Ashantis, Fons, Fulanis, Mandingas, Cambindas, Yorubás são algumas das nações que viram seus homens e mulheres, tratados como animais e controlados pelo chicote e os grilhões, e que trouxeram em seus corpos as suas memórias, em cada cicatriz, a grandeza de suas culturas, seus dialetos e tudo mais que um oceano de lamentos e um mar de sangue não conseguiram afogar.
Os órfãos da negra mãe navegaram com Xangô clamando por justiça, bateram o seu tambor pra não esquecer seus ideais, sofreram com Oxalá e lutaram com Zumbi, brincaram nos cucumbis, comeram o vatapá. A Diáspora Africana criou o candomblé, jogou a capoeira e desfilou o Ijexá. Sambou com a Mãe Quelé, compôs com Silas de Oliveira e resiste na história de vida de Luis Gama, Tia Ciata, Chico da Matilde, Solano Trindade... Permanece incólume na luta silente de resgate aos bravos que a historia oficial não viu, não escreveu e não levou para escola.
Qualquer lista de 10 melhores sambas que fizermos terá no mínimo quatro sambas de motivo Afro descendente: todos nós cantamos a Kizomba da Vila, o Chico Rei do Salgueiro, as Áfricas da Beija Flor e o Mar Baiano de Lucas. Os Heróis da Liberdade "...De Lamento em lamento, de agonia em agonia..." à espera do Sublime Pergaminho... E quando Obatalá mandou chamar seus filhos, juro não conhecia meus irmãos Agudás. Pois bem, estamos cansados de ver alegorias ornadas com materiais que lembram "Marfim e pele de Zebra", ouvir as cansadas rimas axé e fé pra chegar ao samba no pé, e a velha bossa de bateria em ritmo de afoxé, cansamos, sim, das repetições e não das grandes histórias esquecidas na poeira da memória.
Numa época em que as cotas universitárias estão vencendo as resistências
sociais e o ensino da Historia da África e dos Afro descendentes, por força da lei, risca a lousa, o Samba não pode esquecer as suas raízes.
Obs: Meu presidente, caso permaneça qualquer dúvida, após essa breve e simples defesa: "... Pergunte ao criador quem pintou essa aquarela..."
Nota: Faça você também a sua lista dos cinco melhores sambas de temática "Afro", eu fiz a minha e juro que não foi nada fácil, com certeza devo ter cometido alguma injustiça, são eles aleatoriamente:
• Sublime Pergaminho;
• Kizomba, A festa da Raça;
• Heróis da Liberdade;
• 100 anos de Liberdade: Realidade ou Ilusão e
• Agudás.
Sei lá Mangueira
Claudio Russo | Claudio Russo | 02/06/2011 19h48
Em Mangueira a poesia fez-se um mar se alastrou... E foi buscar do outro lado do tenebroso oceano, Avenida Atlântico, via forçada de nossos ancestrais, as raízes de nossa música, nossa cultura africana, que é Bambara e é Haussá, mas também é Nagô e Jeje, é Brasil em cada veia, parafraseando a luz de Luiz Carlos, e é Oxalá, se tornou Tupã quando quebrando as correntes cruzou os sertões, qual bicho do mato se embrenhou e criou a utopia quilombola, Salve Zumbi, Palmares vive, Viva Mangueira, Estação Primeira dessa negritude.
Vou festejar na tribuna popular do carnaval o reencontro do samba com seus alicerces e a beleza que ressoa do encontro de duas instituições sedimentadas na luta de resistência. Muito mais que um tema, Sou Cacique, Sou Mangueira! Resgata um histórico tão nosso, tão intimamente ligado à Batucada dos nossos tantãs... E mesmo assim tão depreciado em virtude de escolhas menos carnavalescas, a história de nossa festa maior está em desfile.
Será que a primeira yakekerê do terreiro de João Alaba, filha de Oxum, um dia imaginou a proporção que tomou a pequena África, quem mandou cutucarem a onça com vara curta. E por falar em onça, aquela do Bafo famoso e um tanto sumida, deve está morrendo de vontade de travar mais uma batalha de confetes com a tribo rival, olha meu amor esqueça a dor da vida...
Podemos sorrir nada mais nos impede, posto que a sombra desta tamarineira se eleva à eternidade de um desfile em verde rosa, lógica fácil de entende, isso é Mangueira, semente viva pelo reconhecimento de nossa cultura. Okê Arô Odé sei que esse Cacique é protegido, é melhor se segurar, pois, a sua história se confunde com a trilha sonora recente desta cidade. E por mais claudicante que possa parecer o samba, em alguns momentos, negligência não se for apanhar meu violão, isso é Ginga, coisa de pele, é cintura de mola na malemolência carioca.
Sinopse linda, poética na medida certa, coisa de gente grande, um primor, viga mestre de um projeto que já nasce com o dom de brilhar, sem palavras. Sei Lá Mangueira, Sei Lá... Não sei não...
O pintor da alegria numa pintura de sábado...
Claudio Russo | Claudio Russo | 29/05/2011 12h50
A tarde desse último sábado foi coroada pela alegria no Largo do Tanque. A tradicional feijoada mensal da querida Renascer de Jacarepaguá recebia Romero Brito, o grande homenageado da mais nova força do grupo especial das escolas de samba. E o que dizer de festa tão feliz? Sabe aqueles dia em que tudo dá certo? O clima em torno da quadra, as pessoas, a organização da escola e a magia do grande artista, que mais parecia em êxtase por tão oportuna lembrança. É... foi assim, e quem esteve por lá sabe do que estou falando.
Por ora, posso dizer que a quadra lotada, a presença de várias personalidades do mundo do samba, inclusive a do presidente da Liesa, Jorge Castanheira, só vem reafirmar a coerência dos primeiros passos da escola para o Carnaval 2012. Não passos recalcitrantes, mas, sim, passos firmes em virtude de um bem coletivo. E como morador do bairro, componente da escola, fico na espera de novos capítulos de uma história que começou da melhor maneira possível - a comunhão entre os sambistas, a direção da escola por tão acertada escolha e a humildade de Romero Brito ao entender o esforço conjunto que vem de Jacarepaguá marcaram a data para não ser esquecida. Valeu Renascer.
Leia também no blog do JCN:
- Marquinhos: trocar Estácio pela Lesga não é trocar seis por meia dúzia
O drama de Muller e as 30 moedas de dinheiro...
Claudio Russo | Claudio Russo | 27/05/2011 13h58
A notícia correu os meios de comunicação na última semana: o ex- jogador Muller estaria passando por sérias dificuldades financeiras. Mas como? Não acredito! O drama do jogador com passagens de sucesso por São Paulo, Palmeiras, Torino, Seleção Brasileira e diversos títulos conquistados, inclusive campeão mundial, revela o lado menos glamouroso da fama e do dinheiro, ou melhor, da falta deles após ter todo um "mundo aos seus pés". A ausência de habilidade com o sucesso repentino, as amizades de ocasião e o despreparo para lidar com o dinheiro podem ser alguns dos fatores que levam tão bem sucedidos profissionais a bancarrota.
Guardando-se as devidas proporções, principalmente financeiras, percebe-se que o "drama de Muller" não é uma história solitária, nem exclusiva dos grandes jogadores de futebol, a ascensão relâmpago, por vezes efêmera, em áreas diversas como a música e o Carnaval somente salientam as dificuldades em gerir um patrimônio jamais pensado, posto que o anônimo de ontem, que hoje passou a ser uma nova estrela, prefere na maioria das vezes adquirir, primeiramente, um carrão do ano a um imóvel; cordões de ouro e roupas grife também são parte da escolha em detrimento de um equilíbrio financeiro.
O universo do carnaval e das escolas de samba vem passando por transformações que sedimentam, ano após ano, a mudança do modo de produção artesanal para o modo de produção capitalista, sistema em que o trabalhador vende sua força de trabalho por "30 moedas de dinheiro" e a história resolveu chamar de salário. É nesse quadro que surgem os profissionais do samba (carnavalescos, intérpretes, coreógrafos, mestre-salas e porta-bandeiras, entre outros) e surgem também números de um grande show: os investimentos de patrocínio, propaganda e marketing e a transmissão para mais de uma centena de países que vem solidificar a maior festa popular do planeta. É necessário que o processo se renove a cada instante o que justifica ousadia e novidades constantes. Entender todo esse quadro não é fácil, porém imprescindível para que não sejamos, nós, os próximos a viver um drama humanamente evitável. Por mais, é importante continuar trabalhando, e muito, assim como a formiga na parábola da cigarra, antes do inverno chegar e quando o tempo do frio prevalecer, escutamos a perfeição nos clássicos dos mestres Cartola e Nelson Cavaquinho (por toda minha vida...) que vendiam sua inspiração, sua força de trabalho e foram imortalizados por suas canções. Afinal, o mundo é um moinho...
Aos Imperianos de Fé
Claudio Russo | Claudio Russo | 21/05/2011 13h08
Vem, Vem ouvir as boas novas que chegam de Madureira... As boas novas do Império do samba, semente do prazer da Serrinha... "Vem, Vem ouvir o Império tocou reunir..." Que a eleição do ultimo domingo conduza a coroa imperial a novos dias de glória e a novos sambas de enredo marcantes. Porque história como a sua, Império Serrano, existem poucas, ou melhor, não existem, pois é único e sempre será em sua grandeza, pois é único em defesa de sua raiz, Árvore frondosa que deu tantos frutos e continua oferecendo valores ao mundo do samba, como é o seu Presidente.
O Império tocou reunir e você imperiano, como um lindo samba diz, de Fé, outra vez vai arregaçar as mangas, esquecer a tristeza e escutar o toque que chega ao coração: o toque de união. Aprendi a gostar desse verde e branco ouvindo meu velho pai como que agora cantarolando Os Cinco Bailes da História do Rio, que onde quer que esteja continua torcendo por dias melhores como esse domingo e essa quarta feira, Dias de Graça. Parabéns ao Mestre Átila, que o talento continue norteando seu caminho e vida longa a quem ama a escola dos Sambas bonitos, antológicos, infinitos - Império Serrano.
A letra do samba
Claudio Russo | Claudio Russo | 18/05/2011 13h22
Não obstante as pseudo-modernidades, continuamos a fazer samba-enredo... Era o começo de outubro de 1989 e, no deslumbramento de meus dezoito anos, adquiria pela primeira vez uma sinopse, a sinopse do Império do Marangá para o Carnaval de 1990. O enredo: Clementina de Jesus - Uma Rainha Negra; o carnavalesco: Clovis Bornay, e a minha vontade naquele primeiro samba a ser composto: passar pelo primeiro corte. Passamos, sim, desse corte e de outros mais até a grande final que não ganhamos. E depois dessa outra e outras derrotas mais, que fizeram das lágrimas um aprendizado para entender as vitórias na Portela, Grande Rio, Em Cima da Hora, Beija Flor de Nilópolis, Renascer de Jacarepaguá, Arrastão de Cascadura, Inocentes de Belford Roxo, Nenê da Vila Matilde... (A memória após os quarenta anos às vezes falha...)
Essas vitórias bem menores que as derrotas tanto em quantidade, quanto em fortalecimento de valores - pois é preciso manter os pés bem próximos ao chão -, nos fizeram perceber que muita coisa mudou nesse tempo todo. Eu mudei, o Carnaval mudou, a festa cresceu e tornou-se espetáculo. O samba, fiel escudeiro das provas no 1º grau, mudou muito mais, ganhou responsabilidade e obrigações, setores, cronologia e novas exigências. "Não obstante as pseudo-modernidades, continuamos a fazer samba-enredo" foi a última frase de nosso agradecimento ao receber o estandarte de ouro de melhor samba-enredo em 2007, das mãos do radialista Antonio Carlos do "Sistema Globo de Rádio". Convicção e sentimento para entender que, após pouco mais de duas décadas, as forças que usamos de sustentáculos permanecem inalteradas nesse Carnaval de mudanças. São elas: a emoção de chorar ao ouvir uma melodia conhecida e a alegria de sorrir ao "ver" surgir uma nova melodia, que nos dão a certeza que o amor ao samba e o talento em compor hão de fazer surgir, tempo a tempo, novos Arlindos, Andrés, Berninis, Clarões e outros Jefersons, Costas, Botelhos, Marquinhos e muito mais Fiondas, Djalmas, Fernandos, Paz.
Convite feito, convite aceito. Da surpresa imediata à satisfação permanente. Sidney Rezende, sem palavras, o blog vai ao encontro de minhas novas aspirações que são: compor um pouco menos e escrever muito mais, resgatando alguns projetos do historiador que existe em mim. Raphael Marinho, grande meio campista, valeu mesmo. Estou muito feliz, agradeço a confiança, estamos prontos para mais um desafio com o time SRZD-Carnaval.
O que será?
Claudio Russo | 13/02/2012 22h36
A difícil arte de julgar
Claudio Russo | 31/01/2012 01h44



