Análise dos desfiles das escolas do Grupo de Acesso A
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 21/02/2012 21h06
O Novo Sambódromo deu pontapé inicial nos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, com sua temporada mista de inauguração e (desagradável) devolução de dinheiro a quem adquiriu ingressos e encontrou setores não prontos (imaginem o Maracanã na estréia da Copa... isto é Brasil!).
Descasos e desgovernos à parte, tivemos uma noite de desfiles onde nenhuma escola disparou frente às outras. Foi um desfile equilibrado onde, a meu ver, quatro podem aparecer como favoritas ao título. Sigo minha análise para apontá-las gradualmente. A marca d Grupo de Acesso 2012 foram os "enredos arremedados", ou seja, escolas recorrendo a muita "elucubração" para tentarem montar uma sinopse que "justificasse" suas apresentações ou homenagens. Em alguns casos, o exagero na forçação de barra desqualificou o desfile.
A abertura da noite coube à carismática Paraíso do Tuiuti, essa simpática escola de São Cristóvão. Mas não foi um desfile feliz. O erro inicial, a meu ver, foi colocar Clara Nunes num elevado tripé - logo ela, que sempre desfilou ao chão, sorrindo e bem perto do povão. Com isso, a escola deixou de consolidar seu apelo ao público, que certamente adoraria ver a ótima performance de Patrícia Costa evoluindo ao chão. Um bom trunfo de harmonia e de comunicação que, infelizmente, não foi aproveitado. A comissão de frente, embora fugindo da obviedade que seria qualquer temática afro, também pareceu muito pretensiosa na concepção dos "anjos mestiços", apesar da boa coreografia. Fantasias e alegorias também vieram abaixo do padrão das escolas seguintes. Enfim, faltou na Tuiuti aquilo que sobejava em Clara Nunes: a alma guerreira.
Após a Tuiuti, a Acadêmicos da Rocinha levou suas praças à avenida. Teve uma apresentação com enredo mais objetivo e mais didático, muito embora não contagiante. As alas cantavam bem o samba, enquanto o casal de mestre-sala e porta-bandeira Diogo Fran e Ana Carolina evoluía com elegância e simpatia. A ala que representava a quermesse, trazendo homens vestidos de beata, a ala dos sem teto e uma outra com os mendigos do praça, davam um tom de humor bem dosado ao desfile, que trouxe ainda uma divertida versão para Dilma Houssef no carro da Praça dos Três Poderes. A Rocinha trouxe seu costumeiro bom gosto para alegorias e fantasias, mas também não causou um efeito mais relevante na plateia. Fez uma apresentação digna, mas não exatamente competitiva.

Foi seguida pelo Estácio de Sá... o Velho Estácio, sempre uma emoção na avenida! Mesmo quando deixa de falar de Ismael e outros bambas para falar de Luma de Oliveira. Entende-se que um enredo deva ter fio condutor e concretizar sua proposta na avenida. Apesar da grandiosidade e da empolgação, sustentadas por excelente chão de escola e por uma poderosa bateria, infelizmente isso não aconteceu. O tema pareceu simpático, mas não sustentou efetivamente um enredo. Como já se podia esperar, trazer as mais variadas expressões do carnaval no país (timabaleiros, blocos afro, cordões etc) para a avenida para "cortejarem a rainha Luma" acabou soando um "remendo" estranho e repetitivo. Louvável e sempre prazeiroso, o Estácio fez sua festa particular com Luma, de fato uma beldade. Mas não pareceu convencer na execução de sua proposta.
A Inocentes de Belfort Roxo foi a primeira escola a mostrar um desfile mais elevado, digamos assim, em termos de competição, na noite. Surpreendentemente rica, com belíssimas alegorias, realizou sua "ópera caleidoscópica" propondo uma interessante releitura da formação do Brasil. O enredo tinha cunho histórico, mas não perdeu os tons e as cores de ousadia. A escola passou animadíssima, derramando brasilidade na avenida. Apesar disso, muitas alas passavam sem sequer balbuciar o samba, com pessoas conversando ou (ops!) tirando fotos! Talvez lhe tenha faltado um pouco mais de facilidade na leitura do enredo para que aumentasse a interação com o público. Wagner Gonçalves mostrou bom trabalho plástico e a bateria foi um dos destaques.
Passou, então, a primeira de minhas quatro favoritas, a Império da Tijuca. Parece que cantar o orgulho tijucano tornou-se uma especialidade dessa tradicional escola. O refrão que afirmava esse orgulho explodia na avenida e contagiava arquibancadas. Emocionante a passagem da escola pelo camarote da vizinha coirmã, Unidos da Tijuca, com trocas de afagos e muita fidalguia entre as duas comunidades. Severo Luzardo foi muito feliz nas fantasias e alegorias, contou com muita propriedade se enredo sobre universos utópicos criados pela mente humana. Fez da abstração um enredo concreto, coerente, e apresentou o primeiro samba envolvente e contagiante daquela noite. A bateria também foi um destaque. O chão da Império da Tijuca e a graça com que evoluiu na pista foram a tônica de um desfile muito bonito, como há muito não se via pela respeitável escola tijucana. A comunidade da Formiga foi, de fato, imperial!
Veio, a seguir, mais uma grande favorita. A Unidos do Viradouro foi, plasticamente, a melhor escola a se apresentar no Acesso. Não fosse Alexandre Louzada o seu carnavalesco. Os niteroienses mostraram um belíssimo conjunto de fantasias e alegorias. A comissão de frente foi a primeira a causar impacto na avenida: interativa, criativa, debochada e muito adequada ao homenageado da vez, Nélson Rodrigues. O enredo passou com extremo didatismo e muita originalidade, embora não fosse um tema inédito na avenida. Alas criativas como as desocupadas na janela, os suicidas, o "sobrenatural de Almeida" e o futebol fizeram grande sucesso. Uma bateria portentosa e uma linda evolução do casal de mestre-sala e porta-bandeira Marcinho e Alexandra. A Viradouro desenvolveu muito bem seu enredo, fazendo o que se espera de uma "ópera de rua" como é a escola de samba: contou uma boa história, com nuances criativas, e contagiou o público. Tivesse um samba melhor, o resultado lhe pareceria ainda mais satisfatório.
Foi seguida pela Acadêmicos de Santa Cruz. Que pareceu traçar um caminho semelhante ao do Estácio: enxertar elementos de um segundo enredo (neste caso, a história do rádio) para "conseguir" manter um discurso de homenagem a seu escolhido (neste caso, o radialista Antonio Carlos). Partir da história da radiodifusão para chegar ao homenageado acabou constituindo um devaneio muito distante, como sugeriu a comissão de frente, que representava as ondas eletromagnéticas. A fantasia dos integrantes também não sugeria exatamente o que dizia ser, apesar da bela coreografia. Com todo respeito a quem concebeu o enredo, não sei se homenagear uma figura tão relevante do rádio deveria ter se restringido tão somente a falar de sua profissão. Faltou uma abordagem mais pessoal, que só apareceu na homenagem a América FC, seu time de coração. Ficou uma sensação de que o enredo era uma homenagem ao rádio e que Antonio Carlos era um personagem (embora único) dentro desse tema. Fantasias e alegorias apenas corretas, um samba sem muito apelo e a competente bateria de sempre culminaram em um desfile apenas regular.
Até que desceu a Serrinha! O glorioso Império Serrano encheu a avenida de emoção e paixão. É louvável ver uma escola tão sofrida, tão penalizada, por vezes tão injustiçada, subir a avenida passando por cima de dores, desconsolos, feridas e mazelas. Ao cantar a força de um de seus mais ilustres baluartes, o Império comoveu-se e comoveu a avenida. Entrou com um canto forte, teve seu nome gritado com respeito e afeto nas arquibancadas. Enfim, chegara a emoção! A audiência parecia empurrar a escola a seu lugar de direito, que é o "Olimpo" do Grupo Especial. O samba foi cantado por toda a escola e pelas arquibancadas. Mauro Quintaes não repetiu o virtuosismo estético de Alexandre Louzada, mas cumpriu com excelência sua tarefa de descrever um enredo com começo, meio e fim. As fantasias e alegorias tinham porte, acabamento e fácil leitura. O presidente Átila cumpriu sua promessa de engrandecer o Império novamente, e a emoção foi garantida por uma harmonia irrepreensível. Os agogôs da Serrinha mais uma vez estrondaram na avenida. E não será nenhuma surpresa se o Império Serrano - também uma de minhas favoritas - for aclamado pelos jurados como Dona Ivone foi na avenida!
Fechando a noite, já quase de manhã, a Acadêmicos de Cubango reiterou o orgulho de Niterói, passando como minha quarta favorita. Seu enredo histórico sobre o Barão de Mauá seguiu a regra do didatismo sem apelar para inovações. Jaime Cezário foi muito feliz por ter dado corpo e grandeza a um tema que sugeria esse porte. Foi uma bela apresentação de fantasias e alegorias, todas de fácil leitura e grande impacto. Provavelmente a escola mais luxuosa da noite. Fechou a maratona em alto astral e também pintou forte entre as favoritas.
O Acesso continua mantendo em cima a bola dos desfiles. Foi-se o tempo de apresentações pobres e desinteressantes. Guardadas as exceções, teve-se uma noite em grande estilo, honrando os setores cheios e a presença animada dos espectadores, que não saíram decepcionados, a não ser pelo vexame histórico da não-entrega de lugares já pagos. Um atestado de incompetência para quem quiser dividir essa conta.
Consolidando minha análise, foi uma noite imperiana e niteroiense. Diria que Império da Tijuca, Império Serrano, Viradouro e Cubango fizeram as melhores apresentações. Destacando que Viradouro foi esteticamente a melhor e a mais emocionante de todas foi o Império Serrano.
Meus parabéns e meu carinho a todas as escolas pelo empenho, pelo espetáculo e pela graça de suas comunidades. Respeito muito essa gente bamba que risca o chão!
Agora é com vocês, jurados!!!
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Desfiles 2012: Três Reflexões
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 21/02/2012 20h40
O ano de 2012 marcou, a meu ver, não apenas a reinvenção do Sambódromo. Fundamentalmente essa obra da Passarela do Samba nos faz refletir também sobre novos rumos dessa arte descomunal que é produzida por gente simples e gente nobre, mas que encanta os quatro cantos da terra.
Antes de saudar as escolas campeãs ou comentar os desfiles (tarefa que desempenhei para o site, e vocês podem conferir também nos links: Beija-Flor, Vila e Portela se destacam no primeiro dia de desfiles e Unidos da Tijuca e Salgueiro se destacam no segundo dia de desfiles, vamos a algumas reflexões.
O samba retomou seu lugar e recuperou seu valor dentro dos desfiles. Prova disso foram os desfiles emocionantes e arrebatadores de Portela e Vila Isabel. Na força de um canto espontâneo, onde o quesito samba-enredo falou mais alto, essas escolas já entraram na avenida incendiando o público. O samba da Portela, em particular, é digno de um registro: mesmo em anos onde outros sambas foram também muito elogiados, raramente se viu uma unanimidade tão forte no carnaval carioca. Houve sambas que aconteceram na avenida, sambas que se consagraram na avenida. Mas um samba unânime como esse já é digno de antologia. Resultado que se confirmou no desfile.
Eis a primeira reflexão. Então podemos discutir sobre a real importância de se fugir das marchinhas, dos refrões de oba-oba, dos "bois-com-abóbora". A retomada de consciência sobre o valor de um bom poema musicado já foi um grande ganho neste carnaval. O que não significa que, em nome desse privilégio ao samba, se possa abandonar os demais quesitos. As escolas disputam todos os quesitos, e o samba fará com que todo o resto se erga. Mas é preciso que haja porte, realeza, elegância. O samba desce o morro, sim, mas não pode descer descalço: asfalto quente queima a sola do pé! E, no asfalto, o sambista é rei! Então o privilégio dado ao samba não pode, nunca, prescindir do traje ou dos elementos alegóricos. Lembremos de Paulo da Portela: ele se vestia de poesia e de elegância! Assim deve ser a escola de samba, também. Mesmo que sem luxo, mas com um mínimo de elegância.

A segunda reflexão é sobre o quesito enredo. Durante muito tempo os carnavalescos tiveram a pretensão de fazerem "sombra" às famosas "elucubrações" do mestre Joãosinho Trinta. Ao contrário do maranhense, que tinha por característica gerar enredos complexos, mas assiná-los com muita propriedade, a presunção de alguns criadores de enredo parece levá-los a enrolar a ala de compositores, confundir o componente e driblar jurado e plateia com coisas que ninguém entende. Fiasco! Mais uma vez a Sapucaí aclamou enredos simples, como Angola, Bahia e Luiz Gonzaga. Quando bem entendido, o desfile carrega a multidão.
O Grupo de Acesso, por exemplo, teve sofríveis exemplos de enredos que, por falta de alguma pesquisa interessante dos criadores ou mesmo por não terem nenhuma consistência, foram enxertados de histórias e coisas paralelas. Uma encheção de lingüiça com muita gordura, sobras, papelão e colesterol. Na fritura, o cheirinho até atrai. Mas a digestão fica difícil e depois vem uma bruta dor de barriga! Enredos de arremedo, sobretudo os que pretendem fazer homenagens nem sempre condizentes com a escola, viram pedra de tropeço. O mesmo para os enredos pretensiosos, que pegam temas simples e singelos e resolvem enxertá-los de histórias paralelas esdrúxulas, pesadas, grotescas. Este ano vimos essa fórmula bater na trave. Os melhores enredos inspiraram os melhores sambas. Mas vale ressaltar: não dá pra morrer no tema simples e achar que não precisa desenvolvê-lo com clareza e criatividade porque ele "já ficou claro".
Cuidado com isso!
E cuidado também com esse negócio de patrocínio! Um enredo com muito merchandising já entra na avenida com etiqueta de rejeição e antipatia do público. No bom jargão das redes sociais... "nem rola"!
A terceira reflexão é esta: escola de samba tem identidade. Sabem o que é isso? Uma escola de samba é... como posso dizer... "pessoa física"! O peso de sua história, a força de seu passado, suas conquistas e seu legado constituem uma envergadura pessoal, autoral. Uma assinatura. Este ano vimos algumas coisas que confirmaram e outras que tiveram conflito com essa questão. Com todo respeito a uma musa, o que a bela Luma tem a ver com a identidade do Velho Estácio? Roeu um osso, foi uma desarmonia total! O Estácio é uma raiz, não pode enveredar por esses caminhos. Por outro lado, que gloriosos os dois Impérios - o da Tijuca, emocionado com seu "orgulho de ser Tijucano" gritado no refrão; o Serrano alardeando a primeira dama do samba que nasceu na Serrinha, esbanjando graça e emoção na avenida. Vimos uma Portela abraçada com Clara Guerreira chorar e fazer chorar na avenida, uma Vila do Negro Rei Martinho exuberante com as cores africanas que tão bem combinam com a azul e branco do bairro de Noel. Irreverência? Teu nome é São Clemente: você faz isso como ninguém há 50 anos! A Tijuca com suas revoluções "paulobarreanas"... é isso aí! O primeiro passo para um bom desfile é entender e reforçar a alma e a identidade da escola.
Caros amigos de todas as agremiações, parabenizo e saúdo a todos. Tenho a modéstia de reconhecer que, mesmo estudando carnaval há mais de 20 anos, sou um aprendiz. Um admirador. Um menino de 40, que ainda está longe de ser um "menino de 47" como o Império Serrano!
Nunca pensem que minhas opiniões são sentenças ou acintes, ofensas ou desrespeito. Tudo que faço ou escrevo, aqui ou na editoria de esportes, é para uma proposta de reflexão. Quem reflete, cresce! Aposto sempre nisso!
Peço sinceras desculpas se algum comentário ou análise destoou dos leitores ou, de alguma forma, pareceu desmerecer alguém. Procuro a sinceridade, a isenção. E acreditem: eu queria sempre elogiar muito tudo o que vejo!
Falar mal de escola de samba é muito... muuuuito duro e difícil!
Nossa equipe, brilhante, escolheu os melhores para o TROFÉU SRZD-CARNAVAL. Fui voto vencido em algumas coisas. Mas respeitei e assinei com eles o tratado!
Agradeço o carinho dos que me procuraram no sambódromo para elogiar nosso trabalho no site. Eu admiro essa arte, sobretudo por ser feita pelas mãos negras e cansadas de nossos operários do samba, gente linda que reina soberana na vida mas só é vista na folia. Escola de samba é paixão e verdade!
E meus respeitos aos bombeiros e maqueiros do Sambódromo, que me acolheram e me deram guarida na cobertura de pista! Amigos que fazem seu belo trabalho e sabem ser cavalheiros o tempo todo! Major Alex, Frank Noronha e toda aquela turma bacana... dez, nota dez!!!
Beijos a todos! Continuo postando!
E, depois dessa tristeza que foi a apuração de São Paulo termino com uma oração:
"Deus, Senhor Deus... paz no Rio de Janeiro e em todo o Brasil!"
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Portela revive sua história ao reinaugurar quadra
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 05/02/2012 12h35
Foi uma festa emocionante. Com uma das torcidas mais apaixonadas do carnaval carioca, a azul-e-branco de Oswaldo Cruz e Madureira abriu as portas de sua quadra, na tarde deste sábado, para exibir o orgulho e a paixão de ser a Majestade do Samba. Uma enorme multidão adentrou às novas dependências da escola, e todos ficaram surpresos com o que viram.
A fachada principal da escola, onde ficam as roletas de acesso (agora eletrônicas), praticamente triplicou sua altura. O imponente forte portelense, em azul celeste no escuro das cores de sua bandeira, ergue-se num paredão onde as letras com o nome da escola impõe-se para identificá-la. Ao entrar, a lateral direita da quadra é um misto de Rio Antigo, com sacadas e janelas históricas, e pontos de encontro que evocam bambas eternos em títulos como "Bar da Tia Vicentina" e "Praça Manaceia".
Nas duas fachadas internas da parte coberta da quadra, destacam-se frases imponentes. "Portela é perfume da flor / É aroma no ar / Para sentir só basta saber respirar" (dos versos célebres de Candeia no clássico "Vem Pra Portela") e "Aqui deu frutos a semente que a Velha Guarda plantou", espécie de frase-ode aos baluartes mestres do panteão portelense.
A tarde teve apresentações musicais que remeteram à mais nobre tradição portelense. A badalada feijoada foi servida a personalidades como a rainha de bateria Sheron Menezes, o prefeito do Rio Eduardo Paes, o vice-governador do Rio, Pezão, o secretário de transportes Júlio Lopes e o jogador Petkovic. Além deles, uma comitiva baiana com integrantes do Olodum e do Ilê Ayê também estiveram presentes.
Um cardápio musical regado a sambas clássicos e canções de Clara Nunes foi o couvert de uma grande tarde de samba. Marquinhos de Oswaldo Cruz, homenageado como idealizador dos dois projetos - a Feijoada da Família Portelense e o Trem do Samba - abriu o show e foi, ao final, laureado por Monarco com uma placa. Dorina subiu ao palco cantando Velha Guarda e Clara Nunes. Noca e Wilson Moreira relembraram vários de seus sucessos. Eliane Faria mostrou sua vocação nobre de herdeira do talento do pai, Paulinho da Viola. Mauro Diniz, filho de Monarco, e Diogo Nogueira também reiteraram o DNA portelense de seus pais. Teresa Cristina, uma das mais aplaudidas do evento, levantou a plateia com sua performance de "O Mar Serenou", mais uma vez lembrando Clara Nunes.

Na parte descoberta da quadra, a bateria "Tabajara do Samba", regida por mestre Nilo Sérgio, contagiava a todos enquanto a voz de Gilsinho empolgava a audiência com o hino para o carnaval de 2012.
Mas foi o virtuoso baluarte Monarco, celebrando os 40 anos da Velha Guarda formosa e faceira da Portela, quem incendiou a audiência. Emendando inúmeros sambas de terreiro - clássicos do repertório de seus amigos bambas - abriu o set com o Hino da Portela, de Chico Santana, e deu-se a disparar jóias como "Cocorocó", "Lenço", "Tudo Menos Amor", "Cidade Mulher", "Corri Pra Ver", "Chegou Quem Faltava", "Coração em Desalinho", "Vai Vadiar", "Lapa em Três Tempos" e outras de mesmo quilate.
Extasiada, a multidão aplaudiu, cantou, dançou e em dados momentos não conteve as lágrimas, sobretudo nas vezes em que músicas como "Contos de Areia" (samba-enredo da escola em 1984, a música mais cantada no evento), "Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida" (de Paulinho da Viola) e "Portela na Avenida" (célebre na voz de Clara Nunes) foram cantadas pelos convidados. Integrantes da torcida Guerreiros da Águia garantiram a animação e o colorido azul e branco com faixas e bandeiras, além de emprestarem seu inesgotável fôlego para vibrar com os sambas da escola.

O prefeito Eduardo Paes saudou os portelenses, declarou seu amor à escola, fez uma brincadeira com Tia Surica ("Eu costumo dizer que Cris é minha esposa, mas a Surica é minha amante!") e pareceu ter mandado um recado para o presidente Nilo Figueiredo:
"Presidente Nilo, a quadra está renovada, a comunidade está radiante com o samba-enredo mais bonito do ano. A Portela tem que fazer um desfile brilhante, tudo precisa estar à altura do que estamos vendo", afirmou, em diplomático mas reiterado tom de exigência.
A nova quadra da Portela mostrou que o orgulho portelense está em alta. Um orgulho que, não obstante o renovo, tem respeito fundamental por sua raiz de bambas.
Salve Oswaldo Cruz e Madureira!
Silenciar as torcidas, não!
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 30/01/2012 17h49
E agora mais esta: proibiram as torcidas de escolas de samba de exibirem suas faixas nas arquibancadas, no dia do desfile, sob a alegação que essas faixas "poluem a transmissão de televisão"!
Mais uma vez - e cada vez mais - as escolas de samba ficam distanciadas de seus princípios e de sua realidade sócio-comunitária graças às imposições comerciais de quem gerencia de forma fria e calculista o espetáculo. A escola de samba, esse fenômeno cultural cujo nascedouro - queiram ou não os sofisticados e elitistas - é o velho e bom subúrbio carioca, vai se tornando um prato apetitoso para a burguesia que se planta diante das televisões.
Os apelos contratuais empacotam uma manifestação cultural viva e dinâmica, produzida pelo povo, para vendê-la como mercadoria espetacular à elite do primeiro mundo. Ao consumir vorazmente uma valiosa arte popular de negros, favelados, suburbanos e pobres, a elite começa a querer redesenhar a festa. É preciso que a elite se identifique um pouco mais com o espetáculo caro que compra. Ao que parece, fica feio, na telinha burguesa, aparecer um pedaço de pano com nomes que remetam a Madureira, Padre Miguel, Oswaldo Cruz, Caxias, Nilópolis, Vaz Lobo... e não a Ipanema, Leblon e Copacabana, que são os "cartões postais oficiais" da Cidade Maravilhosa. É preciso que os acadêmicos titulados da Sourbonne e os intelectuais de Cambridge passem míseros meses dentro de um barracão para publicarem seus livros de muita antropologia e nenhuma propriedade em samba para que o assunto possa ser "entendido" pelas elites que consomem escola de samba. Para eles, é preciso que as escolas de samba virem "escolas de bossa nova", reeditando a primeira manifestação musical do país que tentou embranquelar e sofisticar o samba negro e favelado para vendê-lo no exterior como uma espécie de jazz tupiniquim.
Antigamente escola de samba não podia ter patrocínio. E vimos desfiles monumentais no passado sem essa invasão que nos traz enredos sobre prefeituras, artistas extraterrestres ao samba, indústria de laticínios, chapa branca de governos e outras apelações mais. Hoje, o mantra é "ter patrocínio"! Todo mundo caminha para uma igualdade que descaracteriza as escolas de suas identidades originais.
Para ser "aceito" pelas elites, o samba precisou mudar. Saímos do deus Baco para o deus Chronos: tempo é dinheiro e tempo rege os desfiles! Bateria e samba-enredo correram, passistas passam escondidos e voando, Velha Guarda sai do chão porque "é lenta e não evolui", baianas são trocadas por dançarinas jovens de quadrilha junina, escolas precisam se colorir e desprezar suas cores fundamentais para que o visual na televisão não fique "monótono" (?).
São tantas imposições para satisfazer o "deu$ dinheiro" que passou-se a triturar a preciosidade mais relevante dessa festa que é a escola de samba: deixar seus elementos passionais, tradicionais, seu legado cultural evoluir sem essas intromissões.
Quando surgem as torcidas organizadas de escola de samba - e a pioneira nisso chama-se Guerreiros da Águia, representante da majestosa Portela - parece que, finalmente, o espaço para o amor, a devoção, o respeito e a dedicação serão mantidos em voga, diante de nossos olhos e de nossa admiração. Essa torcida, por exemplo, militou fortemente e brigou nas ruas pela reativação da Portela, pelo renovo que todos estão vendo, pela valorização dos setores primais da escola, pela lisura na escolha de um samba que traduzisse os anseios de sua comunidade. A Guerreiros da Águia - cunhada com o temo "guerreiros" em homenagem à maior das guerreiras do samba, a diva eterna azul-e-branco chamada Clara Nunes - encheu ruas e lotou arquibancadas, em todas as frentes de ensaio e apresentação, mostrando seu amor e sua vocação em abraçar a escola. Quem conhece Marcelo Moura, Jany Monteiro, Betinha, Joseane, Glauber, Denílson, Adriana "Nana", Walter Alverca, Vinicius Rangel, Thiago Kátia Henriques, Helen Mary, Andre Marques, Claudio, Brian, Marcia Vaz, Giselle, Karine, Marcia "Fera Guerreira" sabe o que é sentimento de paixão e (mais que isso) de dedicação pela escola. Lamentavelmente, uma decisão "superior" abafa o trabalho desses e de tantos outros representantes das comunidades da escola em prol de uma argumentação inócua e equivocada como essa, de que suas faixas e bandeiras "poluem a transmissão do desfile".
Podemos, então, relacionar, algumas coisas que nós, também "consumidores" da festa, consideramos "poluentes"? A lista é boa... vamos lá!
- Comentaristas de televisão que caem de para-quedas do futebol e de outras áreas, e não entendem nada de samba, poluem os desfiles.
- Câmeras que privilegiam celebridades de novelas em detrimento dos sambistas originais poluem os desfiles.
- Bicões e celebridades embriagadas (pelo álcool ou pela fama) atravancando a harmonia poluem os desfiles.
- Logomarcas de patrocinadores estampadas toscamente em vinhetinhas eletrônicas que encobrem as imagens das escolas poluem os desfiles.
- Camarotes berrantes de patrocinador recheados de gente vulgar e oferecida, que despreza as escolas de samba, mas adora promover seus 15 minutos de fama no carnaval do sambódromo, poluem os desfiles.
- Jurados que levam envelope pra casa, desconhecem as características das escolas, pontuam bisonhamente os quesitos e apresentam justificativas de nota com argumento patético e erros gramaticais horrorosos poluem os desfiles.
Ainda precisamos dizer mais??? Assim como será feito com as bandeiras das torcidas organizadas, esses poluentes serão também ensacados e recolhidos da festa???
Ninguém aqui é teimoso nem dura cerviz para viver de passado e saudosismo, ignorando a evolução dos tempos. Mas é possível um afã de modernidade que não nos cegue para as tradições, que não nos aparte de nossas raízes, que não faça de nossas escolas de samba filhas desgarradas órfãs de si mesmas por opção, matricidas em desfile.
Fica aqui o meu manifesto de apoio a essa laboriosa gente do samba - Leões da Estácio, Torcida Organizada da Ilha, Sangue Salgueirense, Portelamor, Guerreiros da Águia, Nação Leopoldinense, Independentes da Mocidade, Guerreiros de Vila Isabel, Sou da Vila, Raiz Mangueirense, Devotos da Coroa, Familia Tijucana e outras tais, não citadas, mas não menos importantes.
Gente do chão de escola, da raça vibrante dos tamborins que não podem ser silenciados. Gente da raiz das escolas que não pode ser calada.
E que nunca - nunca, sob hipótese alguma! - poderá ser acusada de "poluir o samba"!
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Seminário reverencia a arte dos passistas em Madureira
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 21/01/2012 17h32
O chão de Madureira foi riscado. Em grande estilo. O Seminário "Passista - Artista do samba e suas vertentes" lotou as dependências do teatro do SESC Madureira para prestar sua homenagem aos artistas da dança do samba pela passagem do dia 19 de janeiro.
- Veja galeria de fotos do seminário
O evento foi aberto pelo Rei Momo, Mílton Rodrigues, e pela Rainha do Carnaval, Cristiane Alves. Ambos saudaram os presentes e passaram o comando para os anfitriões Valci Pelé e Nilce Fran, coordenadora de passistas da Portela. A dupla falou sobre a importância de se ter uma dia para destacar o trabalho dos passistas de escola de samba, fazendo menção à Lei Valci Pelé, que instituiu a data comemorativa. Valci deu início a uma série de apresentações de seus discípulos do Projeto Primeiro Passo, com belas apresentações da Cia Dança do Samba, formada por alunos. Os esquetes faziam referência a textos de Candeia e músicas de Carmem Miranda, com performances que lembravam os filmes brasileiros da Era do Rádio e evoluiam até os dias atuais.
O jornalista José Carlos Rego foi mencionado como uma espécie de patrono in-memorian do Projeto, por ser um dos maiores pesquisadores do assunto, autor da obra clássica "Dança do Samba, Exercício do Prazer".
O blogueiro do SRZD-Carnaval Hélio Ricardo Rainho foi convidado por Valci para um pronunciamento e expôs uma acirrada crítica ao modelo dos desfiles atuais, que praticamente nega o espaço devido aos passistas, atribuindo às exigências da cronometragem esse descaso:

"Para adequar o tempo de desfile à lógica da grade de programação da TV, o samba mudou o andamento, a bateria acelerou, as velhas baianas foram trocadas por meninas de quadrilhas juninas. Os passistas näo puderam ser acelerados. A saída foi tirar-lhes o espaço ou a espontaneidade de sua dança" - ponderou Hélio, respaldado pelos sambistas presentes.
Na sequência, Valci e Nilce contemplaram personagens históricos como Vitamina do Salgueiro, citado como "um pequenino gigante do samba", o "síndico do sambódromo" Machine e o padrinho do projeto, Carlinhos de Jesus.
"Comecei a sambar aos quatro anos. Aos oito eu já era passista da Em Cima da Hora, onde comecei tudo isso. Levei cascudo do Natal na quadra da Portela. Acredito que, assim como um médico, um advogado ou um contador têm orgulho de sua profissão, precisamos construir história e respeito" - disse um emocionado Carlinhos à audiência, sempre muito aplaudido, dedicando seu sucesso à esposa, também presente.
A sequencia de homenageados da noite - recebedores de uma camisa do evento, um canudo e um simbólico "anel de bamba"- teve ainda um requintado toque de sangue azul-portelense, com a presença da cantora e dançarina Patrícia Costa. Neta de Cláudio Bernardo da Costa, um dos baluartes fundadores da Portela, Patrícia falou sobre sua formação em dança e sobre a importância do sambista estudar e conhecer mais sobre seu ofício, para ter reconhecimento por mérito naquilo que faz. Muito emocionada, agradeceu a homenagem e foi muito aplaudida pelos presentes.
A última homenagem da noite ficou para o passista Renato Gerônimo, da Mangueira. "Foi dele a ideia de se fazer um grande evento como este, nesta data. Devo a ele essa inspiração, além do grande passista que é!" - finalizouValci.
O evento terminou com um aulão de samba ministrado por Nilce Fran na quadra do SESC. A seguir, a apresentação do grupo musical Jaqueira, formado em sua maioria por passistas da Portela (Carlos Ferreira, Guilherme Camará e Nílson da Portela, dentre outros), abriu a roda de samba para os shows de Carlos Elias, Monarco e Noca da Portela, tendo ainda as presenças do casal portelense Rogerinho e Lucinha defendendo o pavilhão da Majestade do Samba.
Madureira mais uma vez confirmou a sua vocação de "capital do samba".
Quesitos, Subquesitos e 'Esquisitos' no Carnaval
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 09/01/2012 23h56
A cada ano aumentam as expectativas por alguma intervenção na pontuação das escolas de samba que possibilite um julgamento mais "justo". Digo assim - "justo", aspeado - porque o termo não designa necessariamente uma exigência de lisura e transparência, sendo tão somente associado a uma necessidade de maior coerência nas notas atribuídas pelos jurados.
Vimos, nos anos anteriores, uma discussão (pouco produtiva) sobre a diferença da nota fracionada, não-fracionada, da nota desprezada, da não-desprezada. Já fizeram de tudo, e parece que não se conseguiu nenhum efeito considerável.Este ano anunciou-se que a LIESA decidiu criar mais subquesitos para ajudar na construção da nota final que o jurado atribuirá às escolas. É, afinal de contas, mais um esforço dos administradores do carnaval para evitar critérios disparatados e equívocos que tanto vêm irritando componentes e dirigentes ano após ano.
Posso ser bem sincero e falar o que realmente acho?
Estão trocando a janela pra ver se mudam a paisagem!
Lamentavemente, não é o fato de se desprezar esta ou aquela nota, nem de fracioná-la, nem tão pouco de subdividi-la em duas partes, que vai modificar o que, de fato, tem sido muito mais frequente nos erros de julgamento: a qualificação ou a intenção de quem julga.
Ano após anos temos visto uma sequência de equívocos inenarráveis que, infelizmente, ao citarmos, vem logo uma torrente de pessoas achando que é perseguição, má vontade ou implicância com essa ou aquela escola. O problema não é com nenhuma escola, é com o erro do jurado. Um erro que, estranhamente, a gestão do carnaval não corrige. Dá meia volta, dá uma desculpa daqui, outra de lá... mas não corrige. Continua sempre igual.
A inoperância ára elminar o erro fez com que as justificativas dos jurados passassem a ser uma atração a mais no carnaval. de tão bizarras. São ridículas, tornam a emenda pior do que o soneto. Já lemos as piores justificativas do mundo - algumas em português de décima categoria, permeadas por assassínios gramaticais. O que só nos revela o mau gosto e a falta de preparo de alguns supostos "intelectuais entendidos do assunto". E, mesmo assim, lá estão eles repetindo a dose nos anos seguintes. Parece que nem advertidos são.
Tem alguém que goste disso???
Posso citar aqui um exemplo que considero o mais berrante e claro dos últimos anos: o esplendoroso e emocionante desfile do Império Serrano com sua reedição da "Aquarela Brasileira" em 2004. A escola da Serrinha fez um desfile impecável, emocionante, ganhou Estandarte de Ouro de melhor escola... e terminou em 9° lugar na avaliação oficial. Qual foi o grande pecado dos jurados? Amparados pelos critérios "técnicos" (esse termo é muito vil, fiquem de olho porque isso serve pra justificar muita lambança...), os "entendidos" julgadores despontuaram a escola nos quesitos em que ela, de fato, esteve bastante inferior a algumas outras (fantasias e alegorias, por exemplo). Infelizmente esses mesmos jurados (na verdade, outros, mas vocês estão entendendo meu discurso) não permitiram que a escola tirasse, com a mesma diferença, a distância para as coirmãs onde ela foi infinitamente superior, como harmonia, evolução, conjunto, bateria e samba-enredo. As fantasias do Império eram despontuadas em 1 ou 2 pontos, enquanto seu samba-enredo - jóia clássica de Silas de Oliveira - chegou a ser nivelado a outros de lamentável pobreza melódica, como se o Império, naquele ano, não merecesse que seu samba fosse muito melhor pontuado que os demais por ser, de fato, avassaladoramente superior.
Existe samba digno de nota igual a uma obra de Silas de Oliveira???
Moral da história: nem nota fracionada conseguiu evitar uma injustiça horrorosa com o melhor desfile daquele ano.
Eu queria que alguém, um dia, me explicasse a diferença de uma bateria 9.8 para uma 9.9. Obviamente essa falácia de "fracionamento" desmorona numa subjetividade tosca que ninguém justifica. Nem tuberculoso de sanatório, cujas orelhas caem nos ombros, saberia discernir esse décimo de qualidade de uma bateria para outra.
Isso serve para que, então?!
A meu ver, o problema das avaliações não está em nada de fracionamento, nem subquesito, nem desprezar nota. O problema é a chamada "cabecinha de jurado".
O que a LIESA deveria fazer, sobretudo nas "escolinhas" que formam ou ensinam os responsáveis a darem essas notas, é a entender a festa, respeitar as escolas, eliminar os critérios frios e desumanos da caneta e fazer prevalecer a verdade dos fatos. O grande problema é que esse aparente "privilégio da técnica sobre a emoção" está igualando todas as escolas, como se todas devessem se comportar como uma só. Parece que já escolheram "o modelo" e todas as outras devem segui-lo. A isso chamam de "padrão de competitividade". Aos poucos, todas as escolas de samba vão se descaracterizando para ficarem parecidas com um "modelo" que é desenhado não sob critérios culturais, estéticos, artísticos ou tradicionais, mas muito provavelmente políticos.
Falta debruçar um pouco sobre os livros, pesquisar mais sobre o assunto, ler um pouco da história e da verdade de cada agremiação, para descobrir sua alma e sua verdade. A partir de um quezinho de conhecimento e boa vontade, descobrirão que as escolas de samba têm identidades particulares, individuais, históricas... que não podem caminhar todas para uma mesma direção como bois de pecuária ou cavalos com atas no olhos.
Vão entender, assim, por que a Mangueira não pode ser punida por ser verde-e-rosa, por que a águia da Portela não é colibri, por que a Mocidade tem paradinha na bateria, por que o Império Serrano estremece a avenida com seus agogôs, a irreverência da São Clemente, o gigantismo da Beija-Flor, a academia do samba salgueirense... e por aí vai. Permitir que uma única escola - seja ela qual for - seja o padrão de análise para os jurados, subjugando todas as outras a esse padrão, é um atentado à cultura e ao bom gosto do povo!
As escolas de samba são dinâmicas, autênticas representantes de suas comunidades. É insidioso e aviltante submeter todas as escolas a abandonarem sua vocação histórica e se igualarem a uma coisa só, criando-se (impondo-se!) um "nível" (?) a que todas as outras são obrigadas a alcançar.
A meu ver, mais importante do que mudar modelos de julgamento é mudar critérios.
A pontuação não é mecânica nem automática. Nem tampouco os desfiles o são.
A alma brasileira não pode se subordinar a mentes que se recusam a pensar a escola de samba como expressão viva da identidade de um povo, tentando empacotá-la como se fosse caixa de sabão em pó em uma fábrica, onde todos os produtos saem iguais e aquele que não é parecido é descartado do processo.
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O Carnaval do incomum
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 20/12/2011 23h04
O desfile das escolas de samba deixou de ser, há muito tempo, uma manifestação isolada de um grupo cultural, passando a ser um dos eventos mais espetaculares da indústria cultural do país e do mundo. A escola de samba é o retrato mais expressivo da combinação de todos os fatores sociais e culturais de nosso povo, revestidos de festividade em uma apresentação coletiva que hoje é negociada a preço de ouro.
A presença do elemento artístico nesse contexto festivo trouxe uma das características mais intrínsecas à alma do artista: a inovação. Desde sua origem até os dias atuais, a escola de samba se modificou, passou por incríveis metamorfoses, sempre incomodada com a estagnação e com a mesmice que a poderiam isolar de sua relação com o público.
Sempre houve inovação. E, se não houvesse, a escola de samba não teria se perpetuado, nem adquirido seu status de importância dentro de nosso atual cenário cultural. E a escola de samba, não obstante as criticas que sempre lhe são desferidas por isso, ainda consegue conciliar até onde pode as premissas de sua tradição original e os ímpetos de inovação que, afinal de contas, a alma do artista não pode conter.

Para não se viajar muito além nesta "máquina do tempo", podemos citar aqui alguns exemplos de inovação artística além daqueles históricos que foram as introduções de novos instrumentos nas baterias, sempre citadas e vindas "lá de trás". A ênfase artística veio com a introdução da Escola de Belas Artes no Salgueiro, nos idos de 60. Com Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Joãozinho Trinta (ainda com Z), o Salgueiro trouxe o requinte, o rigor plástico e a temática negra, mas sobretudo revolucionou por dar ao carnavalesco um status maior dentro da festa. Viisonários, porque, hoje, pode-se dizer que a tradição do samba só consegue se perpetuar na grande mídia graças ao caráter espetacular (plástico) dos desfiles.
É uma questão delicada, muito questionada até, mas em um país que não tem por hábito preservar suas tradições (falta-nos aquela oralidade de sociedades como a africana, por exemplo, tão rica na transmissão da sapiência), a imagem é tudo, e o espetáculo visual do desfile acabou dando espaço para o samba passar e se perpetuar.
Como costumo dizer, o artista é, antes de tudo, um incompreendido. E o genial Joãozinho saiu do Salgueiro, praticamente construiu a imagem e a identidade de uma escola muito jovem de Nilópolis, dando porte de majestade à Beija-Flor. Foi ele, Joãosinho (nos final dos anos 80 com S), quem driblou a proibição de enredos estrangeiros com suas mesclas de histórias de fora que acabavam sempre no Brasil, foi ele quem "verticalizou" os desfiles com alegorias do porte das chamadas "Grandes Sociedades", foi ele quem fez um homem voar na avenida (no que pese a relevância disso para o samba, enfim, é espetáculo!).
Também a Beija-Flor teve, na virada dos 70 para os 80, a consagração de Pinah. Quando todas as escolas traziam normalmente destaques brancas e brancos, oriundos dos luxuosos bailes da gala do Municipal com suas fantasias vistosas, a escola de Nilópolis apresentava sua inusitada deusa de ébano careca e com enormes cílios postiços como uma rainha africana coroada na avenida, envolta nas mesmas texturas de plumas, brilhos e luxo que suas concorrentes, mas marcando a inovação. Pinah foi chamada "cinderela negra" do samba e, de fato, encantou o Príncipe Charles, que veio assistir ao carnaval do Rio e, maravilhado, desceu para sambar com a estrela.

É claro que todos os grandes personagens do carnaval sempre causaram polêmica e sempre tiveram a sua contestação. Viva Nélson Rodrigues, que nos ensinou: "Toda unanimidade é burra". As controvérsias acabam atestando a força da inovação: ela realmente incomoda. Como se vê, nos dias atuais, as atuações do sambista e coreógrafo Carlinhos do Salgueiro. Criticado por alguns por sua forma de dançar, Carlinhos ali está para fazer o que carnaval permite: se divertir. E com arte. Prova está em sua irretocável ala de passistas, das mais consagradas e solicitadas para shows do gênero.
Polêmico e consagrado no carnaval atual, Carlinhos do Salgueiro transcendeu a ginga do malandro e transformou-se em um artista versátil, capaz de representar diversos personagens com vigorosa dramaticidade e grande eloquência teatral. Ele interpreta o malandro milongueiro, o Madame Satã inzoneiro e é capaz de viajar do masculino ao feminino com a mesma raridade de um cantor que alterna graves e agudos. Não é nada fácil fazer nem entender o que ele faz! Ele näo samba como homem nem como mulher: ele samba como CARLINHOS! Isso nada interfere nas coreografias que cria ou nos passistas que dirige, todos preservando suas características originais. É bom lembrar que o mesmo Madame Satã que "virava patrulhinhas", brigava na mão e vestia terno banco também se vestia de mulher quando lhe convinha. A Lapa sabe que isso não é novidade.
Enfim, o carnaval das escolas de samba tem se perpetuado e se caracterizado como o "carnaval do incomum". Volta e meia alguém se cansa do igual e cria, recria e reinventa a festa. Nem que para isso tenha que trazer um carro alegórico de cabeça pra baixo, do lado do avesso, como fez Paulo Barros na Viradouro em 2007. Quando também trouxe, pela primeira vez em um desfile, a bateria sobre um carro alegórico.
Mas aí já começamos a contar outra história incomum, dentre tantas do samba...
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Passistas Masculinos: os Dândis do samba
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 05/12/2011 13h05
"É na ginga bonita que o samba tem / Quem não tem ginga, no samba não se dá bem"
[Ataulfo Alves]
"Olha a roda de malandro / Quero ver quem vai cair / Capoeira vai plantando / Pois agora vai subir / Poeira oi, poeira / O samba vai levantar poeira"
[Portela 71 - Ary do Cavaco - Rubens]
Como todo estilo musical rico e contagiante, o samba possui uma dança espontânea, contagiante, anímica. A trajetória das escolas de samba é legitimada através da história pela presença do elemento que personalizou, nos desfiles, a magia e o encanto desse gênero. Muito antes de introduzir os elementos cenográficos à performance dos desfiles, o personagem fundamental para caracterizar um "desfile" era o sambista. Sabia-se que "vinha uma escola de samba" quando se via um grupo de componentes integrando um corpo de dança, livre e espontâneo, ganhando espaço na avenida.
Sem querer aqui aprofundar muito a pesquisa sobre a dança do samba, que exigiria uma pesquisa mais concisa, podemos afirmar que, em linhas gerais, a dança que passou a caracterizar o gingado dos passistas na escola de samba é oriunda das rodas de malandragem, dos "malandros-capoeira" que apresentavam, com estilo, movimentos acrobáticos do velho "jogo de Angola" coadunados com as demais tradições folclóricas do bailar africano.
O samba está diretamente relacionado ao biótipo do malandro. É bom lembrar, inclusive, que o sambista do início do século passado foi considerado marginal e perseguido pelas autoridades - que autuavam seus praticantes sob acusação de "vadiagem" - justamente pela inspiração dos sambistas na figura longilínea e elegante dos ternos e sapatos brancos, lenços de seda e chapéus de panamá utilizados pelos milongueiros da Lapa. A exemplo dos dândis da literatura (e, por isso, eu os chamarei de "dândis do samba"), os malandros da antiga flanavam nas ruas com aprumado senso de elegância e requinte muitas vezes incompatível com sua classe social menos abastada: sobravam-lhe zelo pelos trajes, pelas roupas sem nervuras ou amassos, pelos cabelos gomalinados, perfume marcante, cordões e anéis de ouro, unhas feitas e o chamado "pisante invocado" (sapatos irrepreensivelmente lustrosos).
Foi deles, dos malandros originais, dândis elegantes do samba, que surgiu a classe dos passistas masculinos nas escolas de samba. A dança masculina do samba (do mestre-sala ao passista) tem no malandro a sua fonte. E é bom lembrar que essa referência ao "malandro" só adquiriu contornos religiosos ou espirituais com o passar dos anos: era preciso que, primeiro, surgisse o "malandro" personagem (do samba) para que, só a partir dele, pudessem ser gerados a mitificação e o culto às entidades normalmente associadas a esse personagem "desencarnado". Enfim, é uma discussão à parte, apenas citada aqui.
É de se lamentar profundamente que o sistema massificante e totalizador das transmissões de televisão, além de outros fatores usualmente legitimados pela lógica de pontuação dos quesitos, tenham indiretamente afastado os verdadeiros "donos da ginga" de sua posição original na avenida. Pouco destaque se dá para os artistas do samba no pé, do bailado autêntico do samba. Desde meados dos anos 70, quando o desfile passou a ser considerado um produto cultural de maior aceitação pelas classes abastadas, as escolas de samba passaram a receber um sem número de elementos estranhos às suas comunidades locais. O boom incessante das alas comerciais vendendo fantasias para estrangeiros foi transformando, pouco a pouco, os desfiles em passagens de "componentes", não de sambistas. O cronômetro da televisão só agravou essa "necessidade".
Hoje, em vez de um contingente de passistas com alas de componentes, as escolas de samba desfilam na avenida como um contingente de componentes... que "até têm" (como se fosse um mero detalhe ou favor) uma ala de passistas! Escondidos, separados, como se fossem uma atração distinta. Muito embora soberanamente aplaudidos na avenida, muitas vezes sequer ficam posicionados próximos à bateria da escola. Um contrasenso, visto que essa proximidade é de fundamental relevância para os dançarinos autênticos do samba que, como se diz no jargão das quadras, "riscam o chão" com a leveza e a riqueza de seus movimentos.
A passista masculina, na grande mídia, praticamente restringe-se à madrinha de bateria. Que pode ser uma atriz de novela das oito ou qualquer outra musa que chegue à escola com vultosa verba de patrocínio para injetar na escola. A amiga querida e também companheira de texto no site, Quitéria Chagas, autêntica sambista e rainha do carnaval, já comentou com muita propriedade as nuances desse assunto. Chega a ser risível, aos que vivenciam uma escola de samba, ver numa transmissão de tevê o fuzuê dos repórteres atrás de uma artista à frente da bateria, quando, na quadra, muitas vezes aquele personagem é considerado abaixo dos méritos e mesmo da atenção das verdadeiras sambistas da agremiação. De qualquer modo, a mulata - a figura feminina do samba no chão - ainda consegue mais espaço na mídia justamente em torno da figura de seu corpo e atributos físicos, muitas vezes mais explorados nas imagens do que efetivamente a riqueza de sua dança.
E o passista masculino? E os malandros maneiros, os príncipes do samba? Os dândis do desfil, porta-vozes da elegância... onde ficam, afinal?
Não quero citar nomes, que seriam muitos de uma tradição "milenar" no samba, para não cometer injustiças. Mas lembro da Estação Primeira de Mangueira talvez como a última escola a colocar um passista no alto de um carro alegórico, com o saudoso Gargalhada dando shows com seu pandeiro, ao lado da cantora Rosemary.
Em nosso seminário recente na PUC, tive o prazer de compor uma mesa específica para falar de samba no pé com ênfase na figura do passista masculino. Mesa abrilhantada pelas presenças gloriosas dos dândis príncipes do samba Valci Pelé (Portela) e Carlinhos do Salgueiro. O coreógrafo salgueirense trouxe o auxílio de luxo de dois pupilos: Thiago "Malandrinho" e Mayombe Masai. Deram um show no evento e são, de fato, encantadores!
Pode ser que muita coisa tenha mudado no carnaval, que a modernidade tenha alterado muita coisa na dinâmica dos desfiles de escola de samba.
Mas nada consegue modificar a estranha energia, a contagiante paixão, o fluxo de emoção que vem aos olhos quando chega à avenida aquela ala encantadora - mesmo em espaço muitas vezes restrito - de malandros e mulatas elegantes, dândis e cabrochas, sambando numa dança solta e alegre que vem da alma.
É a eles, aos dançarinos genuínos do samba, aos estetas de dança singular, de Delegado e Dionísio, Gerônimo e Tijolo, Machine e Gargalhada... a essa constelação infinita de bailarinos da avenida, que dedicamos o carinho e o reconhecimento neste espaço!
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Sambas 2012: safra privilegiada
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 29/11/2011 11h06
É comum se fazer uma análise precipitada e, até certo ponto, "fominha" dos sambas-enredo após o lançamento ou a divulgação das gravações originais. Muitas vezes esse juízo é pautado pela necessidade de opinar, mais do que efetivamente pela observação crítica mais coerente ou assertiva.
Com todo respeito aos analistas que se precipitam aos comentários de saída, de uns anos pra cá tenho procurado uma outra "metodologia" para expor minhas análises. Já me desgastei em experiências anteriores nas quais cometi injustiças ou causei indignações, visto que toda crítica é sempre muito subjetiva e as primeiras audições näo sao suficientes para se mensurar a qualidade desse tipo de composição.
Digo isso porque analisar samba-enredo é das tarefas mais complexas que há. Já começa que, além de se precisar conhecer o enredo para avaliar se a letra o desenvolve com propriedade, deve-se levar em conta fundamentos tais como a identidade da agremiação e a linha melódica de sua ala de compositores. Sim, as identidades das escolas podem fazer com que sambas consagrados em umas soassem como fiascos em outras. Além da necessidade desse conhecimento prévio (que, sinceramente, eu duvido que boa parte daqueles jurados empolados tenha), o samba-enredo é o único gênero musical pré-julgado sob um critério "causa-efeito": as pessoas ouvem e tentam antecipar se ele "vai empolgar", "vai conduzir a escola", vai "funcionar".
Pois é: samba-enredo deve ser o único gênero musical que precisa ser "funcional", além de poético, melódico, emotivo, original, adequado etc etc etc.
Pergunto eu: é fácil, assim, de tacada, se pronunciar sobre isso?
Este ano, porém, uma evidência pode diminuir esse espaço de tempo para uma avaliação mais adequada. É que o nível das composições parece estar muito mais elevado que a média de anos anteriores. Que extraordinários estão, por exemplo, os versos de Portela, Imperatriz, Beija-Flor (soberana no quesito "junção de sambas") e Vila Isabel! Para citar apenas os que me parecem "melhor aquinhoados" (citando o velho Rosa) por seus belos enredos. Todas as escolas vieram bem servidas, o que näo esconde uma necessidade cada vez maior de que as gravações oficiais sejam menos "estúdio" e mais "quadra". É chato avaliar o nível dos sambas pela"produçäo": preferimos produtores "invisíveis" e mais "alma de escola" nas gravações.
Como nada é por acaso, um pequeno grande detalhe está fazendo toda a diferença nesta safra 2012. Será um ano de grandes sambas porque as escolas estão trabalhando enredos de muita pertinência com suas tradições históricas, o que incrementou a inspiração de suas respectivas alas de compositores. Mocidade, Salgueiro, União da Ilha, São Clemente e Grande Rio esbanjam verdade e felicidade em seu canto. A caçula Renascer, com seu enredo "Brazilian Day" sobre o pintor Romero Brito, esbanja personalidade em sua estreia sob os holofotes principais. Porto da Pedra segue sua trilha de crescimento ano a ano. E a velha Mangueira, jequitibá do samba (a meu ver apostando num enredo muito mais próximo do subúrbio da Leopoldina ¬ portanto da Imperatriz - do que do Buraco Quente), também tem um belo samba para se aproximar desse tema.
A safra é realmente animadora. O samba-enredo está vivo, apesar de alguns criticos de ocasião continuarem depreciando as obras atuais comparando com as de antigamente a dizer que os sambas de hoje são esquecidos rapidamente.
Se a gente lembrar que a cultura de rádio, onde os sambas-enredo eram mais divulgados, perdeu terreno com o passar dos anos, e que a televisão compra o desfile e produz vinhetas milionárias onde os sambas são exibidos em clipes ridículos de 40 segundos, cortando pela metade até o primeiro refrão, dá pra entender por que sambas extraordinários caem no esquecimento enquanto pagodes cafonas e brega sertanejo nos sufocam nos capítulos de telenovela.
Enfim, "agoniza mas näo morre" essa arte extraordinária. Senão na mídia pasteurizada, nas quadras e nos celeiros onde estão os verdadeiros artistas e amantes dessa festa!
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Portela e Império Serrano: o clamor de Madureira
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 23/11/2011 13h42
Não era, historicamente, Madureira a "Capital do Samba"? Fervente de um sol que frita o asfalto e efervescente de um espírito artístico que ousa até mesmo desabrochar sob um viaduto, o suburbio de Madureira sempre foi uma referencia de manifestações culturais e de uma área comercial próspera que, curiosamente, não se refletiu em infraestrutura ou poder aquisitivo de seus próprios moradores.
Com tudo isso, Madureira possui dois dos mais prodigiosos e refulgentes celeiros de glórias da memória da música e da cultura nacional: as catedrais de samba Portela e Império Serrano. As duas escolas de samba possuem, juntas, 30 títulos do carnaval carioca. Considerando que nenhum outro bairro possui uma vocação tão soberana para vencer carnavais, Madureira deveria ser razão de orgulho e de muitas honrarias, mesmo estando tão esquecida dos pódios de glória como estão.
É relevante considerar que essas duas belas escolas, de histórias extraordinárias nas páginas de ouro do samba, encontraram um jeito de se aproximarem territorialmente mas, embora com suas quadras em Madureira, possuem, cada uma, um elo com um bairro equidistante. A Portela enviesa seu território de Madureira para Oswaldo Cruz, enquanto o Império faz esse elo ligando Madureira a Vaz Lobo, onde mais especificamente se situa a Serrinha.
Mas é em Madureira, nesse solo fértil de frutificação cultural, que as calçadas de pedras se enchem, que as boates acendem e apagam luzes, que o funk impera nos morros e o charme sacode o Viaduto Negrão de Lima. Nessa espécie de "África do subúrbio", cuja história recente também agregava uma rua inteirinha de blocos afro (a rua da Portela, por sinal), florescem os dois celeiros de samba e paixão que são a Águia e a Coroa Imperial.
De todas as grandes escolas de samba, do chamado "grupo das grandes", Portela e Império foram as duas maiorais que mais dificuldade tiveram com os tempos de modernização e de tranculturação dos novos desfiles. Logo elas, soberanas dessa arte que é a inovação, marcadas em seu percurso histórico por terem inventado e reinventado uma série de quesitos e de artifícios do carnaval! Tornaram-se vitimas de cobranças impostas pelos "novos sentenciadores", acossadas pela necessidade de mudança, coagidas a trocarem seus valores por novos padrões impostos pelas gestões ao que se intitulava "competitividade". Lembro-me da Portela, em finais dos anos 80, resistindo bravamente aos jurados calculistas que insistiam em penalizar sua comissão de frente formada pela Velha Guarda gloriosa da escola, taxando-a de "ultrapassada"... jurados cegos ignorando que foi ela, a própria Portela, quem criou o segmento, o quesito, o ‘ganha-pão" de quem, naquele momento, a lesava por não querer mudar. Cansada do ultraje, decidiu mudar sua estratégia e usar o mesmo recurso das comissões das outras.
Atrevo-me a dizer que, das duas, a Portela ainda conseguiu parecer-se um pouco mais com as outras atuais. Mesmo ainda em busca de uma identidade competitiva, já tem uma cara menos tradicional, mais moderna. Deve ser por isso que, todos os anos, independente do grupo em que está, meu coração portelense procura ansiosamente os desfiles do Império Serrano, porque acredito que, até mesmo na sua luta árdua para voltar a seu lugar de direito, é ela - a escola da Serrinha - a última escola de samba de direito e de fato, mais parecida com os desfiles antológicos e inesquecíveis de antigamente.
Foi ele, o Império Serrano, quem deu na avenida um dos mais lindos banhos de nostalgia e classe, quando desfilou em 2004 sua reedição da "Aquarela Brasileira".
Naquele ano, o Império deu a sua aula magistral: foi a última vez que se viu uma escola de samba desfilar com olhos marejados, com gente suando e chorando ao mesmo tempo, com um samba de envergadura fascinante como só o mestre Silas de Oliveira poderia proporcionar, com um contágio absurdo das arquibancadas numa emocionante viagem de volta a um tempo em que a vitória vestia verde-e-branco e levantava a avenida!
Naquele ano, com sua reedição, o Império Serrano lavava a alma da avenida e dizia: "o samba voltou, o chão de escola não morreu, a coroa imperiana é de ouro maciço"! Foi como se a escola abrisse seu vultoso porta-jóias e derramasse na avenida a riqueza de seus pertences, expondo sua riqueza não no luxo ou na ostentação, mas na força de sua simplicidade.
Lamentavelmente a escola que venceu o Estandarte de Ouro não sensibilizou os corações de pedra dos jurados descarnavalizados, que preferiram apelar para o "carnaval de resultados", na métrica cartesiana da mensuração "quesito a quesito". Penalizaram suas fantasias, seus adereços, sua plasticidade. Com isso, distanciaram-na das demais. Esqueceram, porém, de fazer-lhe a justiça devida e distanciar seu samba incomparável dos outros com a mesma lógica de pontuação.
É nessas lembranças que reacende o verde-esperança de que o Império Serrano, hoje comandado por um menino iluminado com nome de rei, o presidente Átila, retomará seu lugar devido e trará novas lições de samba para o nosso carnaval.
Assim como a veterana e gloriosa Portela, fortalecida em seu enredo sobre a Bahia pela presença eterna e catalisadora de forças da guerreira Clara Nunes, volta renovada e feliz para a Sapucaí 2012 prometendo lembrar ao seu séquito fiel que as tradições sobrevivem... nem que seja nos olhares opacos de seus veteranos baluartes, aqueles mesmos que desafiaram a razão e o tempo cantando: "estamos velhos, mas ainda não morremos"!
E é nesta visita memorável, por meio das linhas deste texto, a estas duas glórias do samba, que a história de Madureira se faz prevalecer como reduto e capital do samba!
Brasil: pátria carnavalizada
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 10/11/2011 09h30
Quando falamos de escolas de samba, inevitavelmente nos vem à lembrança o espetáculo. Muito embora a natureza intrínseca da escola de samba seja efetivamente seu sentido social, no dia-a-dia dos grupos que ali congregam e compartilham uma linha tênue de existência comum, a impressão mais imediata ainda é o desfile, o espetáculo.
Eu gostaria de começar minhas articulações textuais neste site fazendo uma avaliação simbólica dessa representação. A escola de samba é, a meu ver, a senha a ser decodificada para o perfeito entendimento do que é a gênese do Brasil. Não quero aqui, de forma alguma, concorrer com as teses do mestre eterno Roberto DaMatta, especialista absoluto no assunto e na avaliação antropológica da relação entre o samba e o Brasil. Meu olhar curioso e menos acadêmico fará, pois, outras observações acerca dessa questão, que acredito terem sido enriquecidas nas leituras de obras do mestre DaMatta e de tantos outros mestres nesse riscado.
Ao pensarmos na Escola de Samba (agora com letras maiúsculas) como essa expressão absolutamente genuína do povo brasileiro, salta-nos aos olhos um incrível mistério quanto ao seu senso de organização, tanto na parte artística quanto administrativa. A Escola de Samba não reproduz o modelo francês de ensino, nem o modelo americano de gestão, nem o modelo japonês de tecnologia. A Escola de Samba impõe seu modelo próprio, brasileiro, de pensar e fazer arte e gestão. Quando olha para os modelos prontos, ela abusa do antropogafismo de Owald de Andrade: traga os elementos estrangeiros, reprocessa e devolve do seu jeito. Durante anos a Escola de Samba rejeitou os enredos de temática internacional, até que finalmente os aceitou... mas vejam bem como os reprocessa e reproduz a seu bel prazer!
É nela, na Escola de Samba, que o brasileiro consegue impor seu padrão de qualidade produtiva, fundindo ao mesmo tempo espontaneidade e assertividade, numa alquimia impensável e impossível de se comparar. Alguém poderá dizer que o futebol também nos explica... não, os sentidos são diferentes! O futebol, embora decantado como uma arte tão peculiar dos pés brasileiros, teve origem lá fora e é reproduzido lá fora, também. Já o samba brasileiro promovido pelas nossas Escolas nasceu aqui, é daqui, multiplica-se aqui e - mais do que isso - vira pastiche quando reproduzido por sampleadores internacionais. Não dá: samba só funciona com brasileiro dentro!
Se observarmos as mutações pelas quais passaram os desfiles de Escola de Samba desde a primeira descida dos sambistas de Mangueira - ainda sem fantasias ou alegorias - ao asfalto, muita coisa mudou, de fato. Conforme registros, a aparição de sambistas do Morro de Mangueira na cidade, em 1932, causou o seguinte comentário do jornalista Jofre Rodrigues: "Mangueira não fica na África, mas no Rio de Janeiro". A desconexão das culturas de morro e asfalto na época levou a crer que aqueles negros batuqueiros cheios de ginga eram africanos, não brasileiros. Hoje, o batuque das escolas cativa e comunica sua mensagem a uma diversidade de públicos, do mais desconhecido passista à atriz da novela das oito.
Esse poder de síntese social, de integração de pólos tão opostos, essa fusão de raças e poderes aquisitivos resume tão misteriosamente a capacidade da Escola de Samba de representar, sem equivalentes, a capacidade do brasileiro de fazer valer o "ordem e progresso" que a bandeira nacional ostenta.
Numa lógica paradoxal, é justamente na carnavalização, que é o exercício de subverter o real, que o país parece caminhar em linha reta.
Viva o panteão do samba!
Por um pouquinho de Praça Onze
Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 03/11/2011 12h16
É com enorme prazer que inicio, aqui, meus escritos e ponderações sobre o universo do samba e dos desfiles de escola de samba. Trata-se de um assunto que há muito me acompanha. Não apenas por eu ter vivido o início de minha infância criado na famosa Praça Onze cujos "braços embalaram o samba", segundo os famosos versos imperianos, mas por eu ter levantado, durante muitos anos, um material de pesquisa específico (livros, revistas, clippings, vídeos, entrevistas) sobre o assunto e, fundamentalmente, por eu ter vivenciado o conhecimento prático das artes carnavalescas trabalhando num barracão da Portela do então carnavalesco Silvio Cunha, em 1988. Foi também o meu vínculo com o compositor, brilhante cantor e eterno mentor Jacyr da Portela que me levou à ala de compositores da escola. Depois disso, passei a escrever e a filisofar sobre o assunto.
A escola de samba é, a meu ver, aquilo que muito apropriadamente exemplifica e elucida a nossa miscigenação racial, o nosso hibridismo cultural, a nossa multiformalidade. É um modelo de gestão espontânea e intuitiva, muito embora, em sua fase atual de espetacularização, tenha introduzido elementos contemporâneos de marketing e administração em seus quadros funcionais.
Sem querer me estender em análises muito teleologicas dessa festa, tarefa que considero muito mais pertinente aos colegas acadêmicos tão respeitáveis que escrevem também aqui no site, proponho-me sempre a trazer reflexões e questionamentos sobre fórmulas, critérios de julgamento, liberdade artística dos carnavalwscos e, sobretudo, preservação das identidades de cada escola. Sim, esse último tema me impele a revelar o meu "DNA Praça Onze", de certa forma purista e exigente, mesclando histórias e feitos antigos com inovações e revoluções do presente.
O que posso prometer é, a partir desse anacronismo, um bom momento para se refletir, com o sagrado incômodo nosso de cada dia, a arte e a magia do maior espetáculo da terra.
Saudações aos demais companheiros blogueiros mestres do carnaval, ao nosso líder amigo Sidney Rezende e, em especial, à querida editora de Carnaval, Luana Freitas. E aos nossos leitores que, a partir de agora, teräo mais um ccompanheiro de incursões carnavalescas.
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