Em nosso texto anterior, comentamos aspectos relevantes ao quesito samba-enredo e que foram alvo de discussão em seminário. Aproveitamos a busca de enredos tipicamente culturais, tão em voga para o ano de 2012 e, principalmente, a escolha de dois pintores de renome, exemplos de talento, abnegação e luta pelo ideal, pelas duas escolas da Zona Oeste da Cidade Maravilhosa (Mocidade Independente de Padre Miguel e Renascer de Jacarepaguá) para homenagear a construção poética que a Unidos da Ponte abrilhantou o Carnaval de 1983. Um grande enredo que louvou os artistas do pincel, um grande samba guardado na memória de tantos sambistas...
Vejo o mundo assim uma escala de notas, um mosaico de sons, sustenidos, bemóis, ecos relativos na infinitude da música; alguns percebem o mundo em movimentos e ritmo, passos e coreografia, são poetas dos gestos e tornam visível a música através da mágica dança; mas todo aquele que deu vida e forma às cores "... viu o mundo assim uma aquarela...", criando na tela as matizes da perfeição e descobriu "... a imagem do amor e a verdade da vida...". Era o ano de 1983, ano de grandes sambas e alguns para sempre "...Quando o pranto se fez canto na razão do dia a dia..."
Muito antes do "alô, povão, agora é sério!" ecoar sucesso na avenida, o "alô, povão, meritiense!" passava ao largo da grande mídia radiofônica. A Mocidade cantava: Ó Morena morada do sol e da lua... E a madeira, das arquibancadas, corroída pelo tempo preparava-se para seu último ato, mas será que alguém percebeu a sensibilidade do "...hoje a natureza canta e a musa se encanta para festejar..." A criação de traços, cores e telas. Eu me deixei levar pela leveza harmônica dessa melodia sem par, obra-prima em que os compositores receberam o beneplácito dos deuses da inspiração. Não venho com isso insinuar que o samba tenha sido ignorado pelo povo carnavalesco, de forma alguma, porém é do âmago do ser humano julgar o todo pela parte, o conteúdo pela forma, o contexto pelo nome e, humanos que somos, por vezes deixamos de dar a devida atenção a quem a mereça.
Um painel de simplicidade emoldura a beleza desta construção, algo inédito para meus ouvidos tão acostumados com os sons do Carnaval no despertar de minha juventude, rara melodia em tom maior que chega a emocionar como se em tom menor fosse. Percebe-se que muito mais que uma ode a grandes pintores, o enredo busca transparecer a força que leva estes artistas à criação, força que ilumina a imaginação daqueles predestinados a eternizarem através do pincel momentos de grande valor, e isso está bastante claro e poético na letra do samba. É válido salientar que a Unidos da Tijuca, no mesmo ano em questão, viajou pela arte concebida para valorizar a natureza e a matéria criada pelo ser supremo, uma "Ponte" que sempre rendeu lindos sambas como: "...Brasil devagar com o andor que o santo é de barro..." Afinal, quando o mar murmura e o dia sorri, o criador e a obra viajam ao encontro daquele que é capaz de realizar a maior das pinturas: Deus. "E Eles verão a Deus razão de todo seu imaginar..." e eles viram a Deus, vendo o mundo assim uma escala de notas na infinitude da música, parabéns a Mazinho, Ambrósio e Renatinho. Com toda minha admiração e respeito pelo samba antológico.
Nota 01: Saliento que com raras exceções somente conseguimos grandes sambas a partir de grandes enredos. Eu só consigo lembrar com boa vontade de dois ou três casos que fogem à regra e surgiram grandes sambas de enredo menores, porém o peso da criação recai exclusivamente sob os pais da criança, nós compositores. Ontem, gravando o samba da Querida Nenê de Vila Matilde para o concurso do Carnaval de 2012 no estúdio do grande intérprete do Salgueiro Leonardo Bessa, pude escutar a opinião do Mestre Reginaldo Bessa, que chegou a um grande exemplo da exceção: Domingo da União da Ilha, samba antológico em um enredo bom, leve mais um tanto inocente, que rendeu um desfile marcante.
Nota 02: Alguns críticos afirmam que reedições não deveriam ser feitas por não funcionarem. Vai o meu agradecimento a Unidos da Ponte, Unidos de Lucas, Império Serrano e ao Império da Tijuca, entre outras agremiações, por presentearem o Carnaval com reedições fantásticas e contrariarem os críticos de plantão.
Nota 03: Aos saudosistas, posto que me vejo por vezes como tal, lembro que sambas bons e ruins sempre existirão. Faça você mesmo sua análise, escute os novos e os antigos sambas e acima de tudo tente entender o processo evolutivo do ritmo que faz parte de um paradigma maior, referente a todo espetáculo. Fechar os olhos para o processo e gritar aos quatro cantos que o bom é, somente, o que desfilou ontem, não passa de ignorância.
Herlon Eduardo lopes da Silva
Membro SRZD desde 09/09/2011
25/08/2011 10:35:03
Meu Querido Zappa, eu fico muito Feliz, por ter Pessoas como vc no muindo Samba. Fique Na Paz do Mestre;; Saudações, forte abraço;;;
Zappa
12/08/2011 05:58:47
Minhas desculpas HERLON EDUARDO pela a inversão de seu nome. Já deveria está saindo pra mais um dia de luta e ainda estou aqui papeando contigo e, nessa de pressa, acabei vacilando. Saudações!
Zappa
12/08/2011 05:50:30
Amigo EDUARDO HERLON, obrigado pela retificação e o consequente resgate autoral do enredo “Descobrimento do Brasil” a Arlindo Rodrigues; Fernando Pinto chegou à Mocidade um ano depois. Em tempo: “O hino do carnaval de 1979, ano do primeiro campeonato da Mocidade, composto pela dupla Toco e Djalma, era realmente muito bom. Saudações!
Herlon eduardo
Membro SRZD desde 09/09/2011
10/08/2011 11:14:37
Querido Cláudio, Com a sua Permissão, Gostaría de Retificar o Comentário do Amigo Zappa. Descobrimento do Brasil, enrêdo Da padre Miguel 1979, era do saudoso Arlindo Rodrigues. Onde a escola sagrou-se Campeã. este mesmo Arlindo foi Campeão no ano Posterior na Imperatriz 1980, O Que Que A Bahia Tem? Desculpe-me, mais o certo é o certo. assim aprendo com meu mestre JCN. Mais uma Vez Forte abraço;;
Herlon Eduardo lopes da Silva
Membro SRZD desde 09/09/2011
10/08/2011 11:05:56
Parabéns pela Lembrança. E Eles Verão a DEUS, É SEM Dúvida um Clássico. Como Diria meu Mestre JCN. Sou Saudosista sim. Infelismente, o Samba Acelerou em todos os seu Segmentos. e falo isso como Pecussionista(Dirtetor de Bateria). É Por isso que não temos grandes Obras. um samba com esta melodia fantástica, não tem espaço. os julgadores cortam logo na disputa.dizendo que o tempo de desfile é pouco. aí está a correria desacebada dos desfiles. infelismente não tem mais romantismo.Grandes Sambas tem que serem Reeditados. isso é Salutar, Samba é samba.UM Sublime Pergaminho, Herois da Liberdade nos blindaría com a mais pura Primazía de que é letra, melodia e harmonia. fortes abraços;; Parabéns pela Coluna.
Zappa
28/07/2011 20:07:37
Tim Maia dizia do alto de seu conhecimento musical, que não era pouco, que qualquer obra musical antes de tudo, deveria ter melodiosidade, quer dizer, harmonia. Analiticamente amigo Claudio, você define o destaque para o samba “Descobrimento do Brasil” como fruto de uma simplicidade comunicativa, quer dizer, melodia harmônica e letra compactada e compreensiva, enquanto o samba “Quinto Império” justificas a letra excessiva e a melodia pobre como “um samba bem trabalhado.” O enredo Descobrimento do Brasil, contou com a genialidade de Fernando Pinto, enquanto o Quinto Império foi construído sob o “delírio” de seu autor Cid Carvalho, mais um intitulado “carnavalesco” que todos os anos repetem a mesmice. Tenha a certeza que o problema não são os enredos, mas os carnavalescos. Saudações!
Claudio
Membro SRZD desde 04/06/2011
28/07/2011 14:52:27
Amigos cada um tem sua razão e não deixam de esta certos, pelo lado do compositor é bem melhor que não haja reedição mas para a festa pode ser, quanto a escolha de boi com abóbora ou não, é um caminho mais complicado e passa por escolha de enredo, do próprio samba, como a safra a ser escolhida, no caso do samba sobre o descobrimento na mocidade marcou muito pelo campeonato e pela simplicidade na sua comunicação, mas vejo o 5º Imperio como um samba mais trabalhado e tambem bonito demais, grande abraço em todos, valeu, Claudio Russo.
lopes
Membro SRZD desde 07/07/2011
26/07/2011 22:21:46
Alo CLAUDIO .Vc como sempre colocando o dedo na ferida (acertadamente) .Vou comecarforade ordem ok ? Eu nao sou muito favoravel as repeticoes de samba pq acho que em primeiro lugar expoe um grande samba do passado ao risco de um mau desfile hoje o que pra mim e uma situacao desnecessaria.Esse bom samba pode levar um "arranhao " de ser um samba de um desfile que rebaixou a escola por ex. Outra situacao e o fato da extincao da ala de compositores por um ano ,que e o que na realidade acontece qdo se reedita um samba.Assim vc de certa forma DESPRESTIGIA AS NOVAS GERACOES DE COMPOSITORES o que e incorreto . Entedo tambem que a afirmativa bons enredo= bons sambas e um tanto quanto duvidosa .Te dou outro exemplo : TRACOS E TROCAS 1984 SALGUEIRO um enredo sobre caricaturistas (sic) deu um excelente samba e o fantastico TUPINICOPOLIS 1987 MOCIDADE nao teve um samba a altura do brilhante enredo de FERNANDO PINTO .Vc ,como compositor sabe que alguns enredos dao bons sambas mas nao necessariamente boas apresentacoes e vice -versa tambem .Vamos torcer para que agora com enredos mais culturais (isso se nao inventarem mais INDIANA JONES E HARRY POTER na avenida ) consigamos entao retornar ao caminho mais certo nao e ? E asssim dessa maneira termos sambas melhores . ABRACOS
Zappa
Membro SRZD desde 15/01/2012
26/07/2011 17:57:36
Claudio acho que a questão samba-enredo transcende nossos desejos e convicções explicativas dos porquês para que o samba “Descobrimento do Brasil” de 1979 da Mocidade Independente tenha se tornado uma referência musical na história da escola e 30 anos depois em 2009, o samba “O Quinto Império de Portugal” da mesma Mocidade, seja apenas uma mera lembrança. Não faz diferença, se o enredo é bom ou ruim, mas diante do panorama atual devemos direcionar as atenções para os rumos que as chamadas disputas de sambas negativamente tomaram consequenciados, principalmente, pela omissão das agremiações. Tenho consciência que os desfiles, os sambas, as baterias, enfim, que tudo hoje é parte de um mega espetáculo e que é inimaginável a mesma leitura de cinquenta anos atrás, mas que pelo menos podemos tentar salvaguardar o que restou. A própria MPB diante dos bombardeios sequentes de funks, rappers, reggaes etc, está combalida e justo por isso morrerei bradando diante da irrevogável mutação sofrida pelas escolas, que os sambas-enredos não precisavam a cada ano serem lamentáveis bois com abóbora. Saudações!
Ivonete Pereira Tavares
Membro SRZD desde 29/07/2011
26/07/2011 08:22:11
Bom dia. As reedições são sempre bem vistas, igual ao cinema, a moda e outros, porque os desfiles daqs Escolas de Saqmba não pode. Há sempre gente nova no pedaço e é bom saber o que já foi feito. Esse refazer é também memoria, preservaçao e história dos defiles das Escolas de Samba carioca.
Marques
25/07/2011 21:31:13
Grande amigo Cunanins, Angola vem aí. Um grande abraço, Marques
A União mudou...
Claudio Russo | 27/04/2012 16h30
Cavalo de Batalha
Claudio Russo | 10/05/2012 19h38




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