O filho do Imperador

Rachel Valença | Rachel Valença | 13/09/2011 12h13

Foto: Ricardo AlmeidaNa próxima quinta-feira, no Teatro Rival, o sambista Jorginho do Império vai homenagear seu pai, Mano Décio da Viola, num espetáculo único chamado Jorginho do Império, o filho do Imperador.

O Imperador é a forma carinhosa como o grande compositor passou a ser conhecido e a origem disso é o samba que em sua homenagem fizeram Paulo Debétio e Paulinho Resende:

Você que fundou o Império

E não se vestiu de imperador

Ficou sendo lá no Serrano

Apenas o Mano poeta e cantor

Posso testemunhar que Mano Décio não se vestiu de imperador, ou seja, nunca teve pose de fundador, de importante. Não era de sua natureza. Era um homem simples, alegre, comunicativo, doce como as balinhas que oferecia a seus interlocutores de maneira cordial. Tive a felicidade de conviver com ele, de entrevistá-lo mais de uma vez para o livro Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba, e até na minha casa ele almoçou, como o comum dos mortais.

Eu gostava muito do Mano Décio. Mas a principal razão para não deixar de ir ao Rival dia 15 de setembro é que gosto dos seus sambas, e quase nunca tenho oportunidade de ouvi-los assim ao vivo. Tenho quatro LPs seus, já os transformei em CD, mas ao vivo, no palco de um teatro, é outra coisa. Seus sambas de terreiro são inesquecíveis e os sambas de enredo foram dos melhores que a escola teve. Um em especial, pouquíssimo ouvido, é Rio dos Vice-Reis, de 1962, em que teve como parceiros Aidno Sá e Davi do Pandeiro. Uma beleza de samba.

E por falar em parceiros, os de Mano Décio sempre ombrearam com ele em competência. A começar por Silas de Oliveira, o mais constante, com quem escreveu inúmeras obras-primas. E sem esquecer Jorginho Pessanha, outro grande poeta que o Império teve, dentre tantos, no presente e no passado. A esses se juntam Osório Lima, Arnaldo Penteado, Abílio Martins e outros grandes.

Mais uma razão para ir ao Rival: eu gosto do Jorginho do Império. Como amigo e como artista. E tenho em comum com ele este grande amor pelo Império Serrano. Muita gente não reconhece o quanto Jorginho já fez pela escola, mas garanto que foi muito. Em 1981, por exemplo, quando tentávamos organizar para o Império uma Velha Guarda que pudesse se apresentar em público, como a da Portela já fazia, mostrando ao mundo nosso maravilhoso patrimônio musical, foi Jorginho do Império quem tomou a dianteira e administrou com franciscana paciência e habilidade as briguinhas dos "meninos": o grupo era formado por Mano Décio, seu Fuleiro, seu Molequinho, Manuel Ferreira, Nilton Campolino e Carlinhos Vovô e congregava ainda as pastoras que dançavam samba e jongo, uma das fortes tradições da Serrinha, e faziam ainda o indispensável coro de vozes femininas.

É, o Império tinha muitos cantores de sucesso na mídia naquele momento, mas foi Jorginho do Império que capitaneou essa nau, prestando um inestimável serviço à sua escola e à cultura brasileira. Pois a Velha Guarda Show que hoje temos, organizada na origem por Nilton Campolino, é resultado dessa primeira, que deve tudo ao Jorginho do Império.

Mesmo que por alguma estranha razão se anunciasse que Jorginho não cantaria nada do que eu espero ouvir, eu estaria lá para aplaudi-lo, pelo muito que o samba carioca - e não apenas o Império Serrano - deve a ele. Mas não haverá, espero, nenhuma razão para o público não se deleitar com Heróis da Liberdade, Apoteose ao Samba, Amor Aventureiro, O Imperador e tantos outros bons sambas, na voz bonita e emocionada de um filho dedicado.

Comentários (8)

Claudio

Membro SRZD desde 04/06/2011

20/09/2011 13:50:43

Rachel fico muito lisonjeado por seus comentários e de fazer parte de um grupo tão qualificado como este, a cada dia mais aprendo um pouco, o que me faz lembra o tempo de aluno da graduação em história quando precisei ler alguns textos da profª Rachel Valença para enriquecer minha monografia, gosto muito de seu blog, acompanho de perto e só tenho a lhe dizer por enquanto parabens.

Julinho di Ojuara

Membro SRZD desde 13/04/2009

20/09/2011 12:27:14

PoxaRachel, e eu que achava que era um dos únicos a ver tanta importância no Jorginho, chego a me emocionar com seu depoimento, em Maio encontrei o Jorginho e perguntei sem titubear: Qauntas capsulas de formol vc toma por dia ?. Ele elegante como sempre, respondeu: - Por enquanto uma !. Figura que conheço a muitos anos, pois meu pai (Cachimbo) era um amigo e tanto do Jorginho e do Mano. Fico feliz que nosso filho do Imperador, lembre e seja lembrado, principalmente por alguém que "registra" a história tão bem como você !.

Vinícius Ferreira Natal

Membro SRZD desde 13/07/2011

19/09/2011 23:54:45

Jorginho é daqueles cantores que não importa o ano, tem de estar na avenida cantando pelo Império...

Tuninho Cabral

Membro SRZD desde 11/04/2009

14/09/2011 15:54:01

Amigo Zappa. Forte abraço. Jorginho vai saber da sua sugestão. ---( Viva Mano Décio da Viola! VIVA O SAMBA! )--- Amiga Rachel. Parabéns e obrigado em nome de todos os Imperianos. Jorginho do Império é o legítimo FILHO DO SAMBA!

Desculpemas

Membro SRZD desde 07/08/2011

14/09/2011 15:30:16

...vamos ao Rival ouvir um "menino" que luta pelo Samba!

carlos alberto machado

Membro SRZD desde 16/04/2009

14/09/2011 06:26:14

Interessante é que uma escola que é Império e teve um imperador ,seja a mais viva representação de um modelo democrático,onde todos votam e participam.Estaremos no Rival juntos,misturados e emocionados para ouvir ,aplaudir e abraçar Jorginho ,que embora do Império,é admirado por todos que gostam de samba.

Aline Said Pessoa

Membro SRZD desde 23/08/2011

13/09/2011 17:18:01

Quisera eu estar no Rio para poder assistir a tão brilhante evento!!! Não tenho dúvidas de que todos, imperianos ou não, se emocionarão com as canções maravilhosas de Mano Décio interpretadas pelo fantástico Jorginho do Império.

Zappa

Membro SRZD desde 16/04/2009

13/09/2011 17:04:47

Recentemente assisti a um vídeo no qual Jorginho canta em companhia do pai Mano Décio, o samba “Tocar na Banda”, uma composição de Adoniram Barbosa. Sugiro a todos que quando possível assistam ao vídeo, pois se trata do registro de som e imagem do samba de Saõ Paulo e do Rio. Mano Décio é um dos compositores de “Heróis da Liberdade”, um clássico composto em parceria com Silas de Oliveira e Manuel Ferreira, que sempre que posso, em qualquer roda, puxo e aí não tem jeito, todo mundo vem junto. Em tempo: considero a composição, em conjunto com Aquarela Brasileira, Os Cinco Bailes e Nordeste, Seu Povo, Seu Canto, Sua Glória, as quatro maiores representações de sambas-enredos do Império Serrano. Alô Tuninho Cabral e Rachael! Que tal Jorginho gravar um CD homenageativo, somente com as ccomposições de Mano Décio? Saudações!