Quando falamos de escolas de samba, inevitavelmente nos vem à lembrança o espetáculo. Muito embora a natureza intrínseca da escola de samba seja efetivamente seu sentido social, no dia-a-dia dos grupos que ali congregam e compartilham uma linha tênue de existência comum, a impressão mais imediata ainda é o desfile, o espetáculo.
Eu gostaria de começar minhas articulações textuais neste site fazendo uma avaliação simbólica dessa representação. A escola de samba é, a meu ver, a senha a ser decodificada para o perfeito entendimento do que é a gênese do Brasil. Não quero aqui, de forma alguma, concorrer com as teses do mestre eterno Roberto DaMatta, especialista absoluto no assunto e na avaliação antropológica da relação entre o samba e o Brasil. Meu olhar curioso e menos acadêmico fará, pois, outras observações acerca dessa questão, que acredito terem sido enriquecidas nas leituras de obras do mestre DaMatta e de tantos outros mestres nesse riscado.
Ao pensarmos na Escola de Samba (agora com letras maiúsculas) como essa expressão absolutamente genuína do povo brasileiro, salta-nos aos olhos um incrível mistério quanto ao seu senso de organização, tanto na parte artística quanto administrativa. A Escola de Samba não reproduz o modelo francês de ensino, nem o modelo americano de gestão, nem o modelo japonês de tecnologia. A Escola de Samba impõe seu modelo próprio, brasileiro, de pensar e fazer arte e gestão. Quando olha para os modelos prontos, ela abusa do antropogafismo de Owald de Andrade: traga os elementos estrangeiros, reprocessa e devolve do seu jeito. Durante anos a Escola de Samba rejeitou os enredos de temática internacional, até que finalmente os aceitou... mas vejam bem como os reprocessa e reproduz a seu bel prazer!
É nela, na Escola de Samba, que o brasileiro consegue impor seu padrão de qualidade produtiva, fundindo ao mesmo tempo espontaneidade e assertividade, numa alquimia impensável e impossível de se comparar. Alguém poderá dizer que o futebol também nos explica... não, os sentidos são diferentes! O futebol, embora decantado como uma arte tão peculiar dos pés brasileiros, teve origem lá fora e é reproduzido lá fora, também. Já o samba brasileiro promovido pelas nossas Escolas nasceu aqui, é daqui, multiplica-se aqui e - mais do que isso - vira pastiche quando reproduzido por sampleadores internacionais. Não dá: samba só funciona com brasileiro dentro!
Se observarmos as mutações pelas quais passaram os desfiles de Escola de Samba desde a primeira descida dos sambistas de Mangueira - ainda sem fantasias ou alegorias - ao asfalto, muita coisa mudou, de fato. Conforme registros, a aparição de sambistas do Morro de Mangueira na cidade, em 1932, causou o seguinte comentário do jornalista Jofre Rodrigues: "Mangueira não fica na África, mas no Rio de Janeiro". A desconexão das culturas de morro e asfalto na época levou a crer que aqueles negros batuqueiros cheios de ginga eram africanos, não brasileiros. Hoje, o batuque das escolas cativa e comunica sua mensagem a uma diversidade de públicos, do mais desconhecido passista à atriz da novela das oito.
Esse poder de síntese social, de integração de pólos tão opostos, essa fusão de raças e poderes aquisitivos resume tão misteriosamente a capacidade da Escola de Samba de representar, sem equivalentes, a capacidade do brasileiro de fazer valer o "ordem e progresso" que a bandeira nacional ostenta.
Numa lógica paradoxal, é justamente na carnavalização, que é o exercício de subverter o real, que o país parece caminhar em linha reta.
Viva o panteão do samba!
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