Portela e Império Serrano: o clamor de Madureira

Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 23/11/2011 13h42

Foto: MontagemNão era, historicamente, Madureira a "Capital do Samba"? Fervente de um sol que frita o asfalto e efervescente de um espírito artístico que ousa até mesmo desabrochar sob um viaduto, o suburbio de Madureira sempre foi uma referencia de manifestações culturais e de uma área comercial próspera que, curiosamente, não se refletiu em infraestrutura ou poder aquisitivo de seus próprios moradores.

Com tudo isso, Madureira possui dois dos mais prodigiosos e refulgentes celeiros de glórias da memória da música e da cultura nacional: as catedrais de samba Portela e Império Serrano. As duas escolas de samba possuem, juntas, 30 títulos do carnaval carioca. Considerando que nenhum outro bairro possui uma vocação tão soberana para vencer carnavais, Madureira deveria ser razão de orgulho e de muitas honrarias, mesmo estando tão esquecida dos pódios de glória como estão.

É relevante considerar que essas duas belas escolas, de histórias extraordinárias nas páginas de ouro do samba, encontraram um jeito de se aproximarem territorialmente mas, embora com suas quadras em Madureira, possuem, cada uma, um elo com um bairro equidistante. A Portela enviesa seu território de Madureira para Oswaldo Cruz, enquanto o Império faz esse elo ligando Madureira a Vaz Lobo, onde mais especificamente se situa a Serrinha.

Mas é em Madureira, nesse solo fértil de frutificação cultural, que as calçadas de pedras se enchem, que as boates acendem e apagam luzes, que o funk impera nos morros e o charme sacode o Viaduto Negrão de Lima. Nessa espécie de "África do subúrbio", cuja história recente também agregava uma rua inteirinha de blocos afro (a rua da Portela, por sinal), florescem os dois celeiros de samba e paixão que são a Águia e a Coroa Imperial.

De todas as grandes escolas de samba, do chamado "grupo das grandes", Portela e Império foram as duas maiorais que mais dificuldade tiveram com os tempos de modernização e de tranculturação dos novos desfiles. Logo elas, soberanas dessa arte que é a inovação, marcadas em seu percurso histórico por terem inventado e reinventado uma série de quesitos e de artifícios do carnaval! Tornaram-se vitimas de cobranças impostas pelos "novos sentenciadores", acossadas pela necessidade de mudança, coagidas a trocarem seus valores por novos padrões impostos pelas gestões ao que se intitulava "competitividade". Lembro-me da Portela, em finais dos anos 80, resistindo bravamente aos jurados calculistas que insistiam em penalizar sua comissão de frente formada pela Velha Guarda gloriosa da escola, taxando-a de "ultrapassada"... jurados cegos ignorando que foi ela, a própria Portela, quem criou o segmento, o quesito, o ‘ganha-pão" de quem, naquele momento, a lesava por não querer mudar. Cansada do ultraje, decidiu mudar sua estratégia e usar o mesmo recurso das comissões das outras.

Atrevo-me a dizer que, das duas, a Portela ainda conseguiu parecer-se um pouco mais com as outras atuais. Mesmo ainda em busca de uma identidade competitiva, já tem uma cara menos tradicional, mais moderna. Deve ser por isso que, todos os anos, independente do grupo em que está, meu coração portelense procura ansiosamente os desfiles do Império Serrano, porque acredito que, até mesmo na sua luta árdua para voltar a seu lugar de direito, é ela - a escola da Serrinha - a última escola de samba de direito e de fato, mais parecida com os desfiles antológicos e inesquecíveis de antigamente.

Foi ele, o Império Serrano, quem deu na avenida um dos mais lindos banhos de nostalgia e classe, quando desfilou em 2004 sua reedição da "Aquarela Brasileira".

Naquele ano, o Império deu a sua aula magistral: foi a última vez que se viu uma escola de samba desfilar com olhos marejados, com gente suando e chorando ao mesmo tempo, com um samba de envergadura fascinante como só o mestre Silas de Oliveira poderia proporcionar, com um contágio absurdo das arquibancadas numa emocionante viagem de volta a um tempo em que a vitória vestia verde-e-branco e levantava a avenida!

Naquele ano, com sua reedição, o Império Serrano lavava a alma da avenida e dizia: "o samba voltou, o chão de escola não morreu, a coroa imperiana é de ouro maciço"! Foi como se a escola abrisse seu vultoso porta-jóias e derramasse na avenida a riqueza de seus pertences, expondo sua riqueza não no luxo ou na ostentação, mas na força de sua simplicidade.

Lamentavelmente a escola que venceu o Estandarte de Ouro não sensibilizou os corações de pedra dos jurados descarnavalizados, que preferiram apelar para o "carnaval de resultados", na métrica cartesiana da mensuração "quesito a quesito". Penalizaram suas fantasias, seus adereços, sua plasticidade. Com isso, distanciaram-na das demais. Esqueceram, porém, de fazer-lhe a justiça devida e distanciar seu samba incomparável dos outros com a mesma lógica de pontuação.

É nessas lembranças que reacende o verde-esperança de que o Império Serrano, hoje comandado por um menino iluminado com nome de rei, o presidente Átila, retomará seu lugar devido e trará novas lições de samba para o nosso carnaval.

Assim como a veterana e gloriosa Portela, fortalecida em seu enredo sobre a Bahia pela presença eterna e catalisadora de forças da guerreira Clara Nunes, volta renovada e feliz para a Sapucaí 2012 prometendo lembrar ao seu séquito fiel que as tradições sobrevivem... nem que seja nos olhares opacos de seus veteranos baluartes, aqueles mesmos que desafiaram a razão e o tempo cantando: "estamos velhos, mas ainda não morremos"!

E é nesta visita memorável, por meio das linhas deste texto, a estas duas glórias do samba, que a história de Madureira se faz prevalecer como reduto e capital do samba!

Comentários (8)

Carnafut

Membro SRZD desde 20/04/2009

11/03/2012 12:47:37

Gostei do texto, mais por mais que a TIjuca sobra hoje, mais nunca cegará a Madureira em outros termos, por mais que Portela e Império Serrano, estejam numa draga, mais elas com certeza, junto com Mangueira e Salgueiro, sempre serão chamadas de grandes. mesmo tendo uma Beija-Flor, Vila Isabel, Grande Rio, Tijuca, Mocidade e Imperatriz?

Danielle Ribeiro de Souza

Membro SRZD desde 05/12/2011

05/12/2011 13:59:40

Linda reportagem!!!!!!!! Felizmente, eu estava lá em 2004 e chorei muito antes de entrar na avenida. Enquanto a escola anterior estava desfilando, o Império se preparava, com as alas cantando lindamente o grande samba de Silas de Oliveira! 2012 tem tudo pra ser de Madureira: Portela e Império campeãs... já pensou na alegria que seria??? Bom demais...

Ema Oliveira

Membro SRZD desde 21/11/2011

25/11/2011 10:45:42

Que coisa linda essa matéria! Que me desculpem as co-irmas do samba, mas madureira é o celeiro do samba!!! Portela com sua Tradição e Império com seu samba de raiz!! Madureira terra da arte... da música, do samba, do charme... Salve Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Ary do cavaco, Mano Décio, Manacéia, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Tia Vicentina, Tia Surica... Dentre tantas outras "JÓIAS DO SAMBA" Salve Madureira, Salve Portela e Império... Madureira é o amor de nossas vidas!!

Antonio

Membro SRZD desde 28/06/2011

24/11/2011 10:24:30

Linda a matéria : Eu estava lá no meio do meu querido império em 2004, e vivi essa emocão. INESQUECÍVEL. Fiquei emocionado com sua matéria... PARABÉNS

ANA MARÇAL

Membro SRZD desde 01/09/2011

24/11/2011 09:35:27

Que lindo o artigo. Parabéns! Isso prova que arte não mede com fita métrica, mas sim pela emoção que ela pode despertar nas pessoas. Império e Portela conhecem com poucas escolas o caminho do coração, do amor ao samba e ao carnaval. Salve Oswaldo Cruz e Madureira. Salve o Samba, Salve a arte!

Zappa

Membro SRZD desde 16/04/2009

23/11/2011 17:34:17

Portela, Império Serrano, Mangueira e posteriormente Salgueiro, durante anos monopolizaram o direito de serem referências dos desfiles cariocas, mas o tempo passou, os desfiles se tornaram megaevento e Portela e Império ficaram. A azul e branca não vence um título real desde 1970 e o Serrano por questões econômicas alterna ano no especial, ano seguinte no acesso. Alguém consegue supor a Portela apresentando enredos e desfiles como o Unidos da Tijuca ou o Império com televisivos artistas, compondo sua harmonia e alegorias como a Grande Rio? As escolas tornaram-se artistas, mas a dupla madureirense resiste ao novo contexto, ainda bem, pois afinal, nenhuma árvore se sustenta sem raiz e a raiz da do samba com certeza está fincada em Madureira. Saudações!

Ricão da Cuica

Membro SRZD desde 31/01/2011

23/11/2011 17:05:04

Salve a Portela, salve o Império Serrano salve Madureira! Hélio Rainho, parabéns pela dissertação.

Daniel Thompson

Membro SRZD desde 30/04/2009

23/11/2011 16:30:56

Linda a matéria... Fiquei super emocionado com ela. Isso só mostra que mesmo com todos os disparates que acontecem no carnaval, ainda existem escolas que prezam pela essência e tradoção, mesmo com a modernidade do século 21.