Enfim, os sambas de 2012

Rachel Valença | Rachel Valença | 10/01/2012 01h30

Sempre tive muito medo de opinar publicamente sobre sambas de enredo, que na verdade são a minha paixão, ou seja, constituem o elemento mais importante de uma escola de samba. Há, por exemplo, quem se lembre de todos os carros alegóricos que já passaram na Sapucaí, que seja capaz de descrevê-los minuciosamente e os considere a principal atração de um desfile. Existem também apaixonados por casais de mestre-sala e porta-bandeira ou por comissões de frente. Para mim, nada se compara ao samba de enredo. Seria, portanto, compreensível que eu gostasse de falar sobre eles. Mas, ao contrário, tenho verdadeiro terror de emitir opinião sobre este assunto. E sei muito bem qual a origem disso.

Em 1982 o samba do Império Serrano, Bum Bum Paticumbum Prugurundum, de Beto Sem Braço e Aloísio Machado, foi alvo de comentários contundentes de uma jornalista que hoje prezo muito. Ao fazer a crítica ao disco, arrasou o samba do Império Serrano. A onomatopeia do título foi considerada por ela de mau gosto e por isso chegou a prever a derrocada da escola, que aliás se recuperava de uma péssima colocação. Como se tratava de uma profissional muito respeitada, até que o samba tomasse força e ganhasse a cidade, tornando-se não só o principal fator para a vitória da escola, mas uma unanimidade sua falta já tinha sido esquecida.

Mas a jornalista não se perdoava: pessoa séria e profissional competente, nunca se recuperou desse erro fatal de avaliação. Erro que pode acontecer a qualquer um, pois nem sempre os sambas nos conquistam na primeira audição. Embora às vezes isso aconteça, não é a regra. Então, um samba que originalmente não nos dizia nada pode ir ganhando espaço em nossa preferência e daí a pouco só queremos saber de ouvir este e nenhum outro. Por isso, em que momento será que estamos aptos e maduros para comentar uma safra?

Sobre a safra de 2012, que me parece melhor no seu conjunto do que as dos anos anteriores mais recentes, evitei me manifestar aqui neste espaço, embora isso me tenha sido pedido e cobrado pelos leitores. E se eu escrevesse alguma coisa de que depois viesse a me arrepender? De fato, já mudei de opinião sobre alguns sambas e possivelmente até o carnaval mudarei ainda. Apreciei as avaliações de meus companheiros, principalmente a detalhada análise do Cadu Zugliani, que realmente foi fundo, como era sua proposta. E continuei sem coragem de encarar a tarefa.

Depois que o disco saiu e que a grande imprensa se ocupou dele, parecia não haver mais necessidade de falar sobre os sambas. Até que na semana passada o jornal O Dia me convidou a avaliar os sambas, atribuindo-lhes notas de 8 a 10. Ai, meu Deus, como é difícil! Mas já que o fiz, enfrentando a pedreira, será justo que os leitores deste espaço também tenham o direito de conhecer a minha modesta opinião e até de rirem de mim se eu cair em alguma armadilha daquelas que no passado derrubaram gente mais capacitada que eu. Vamos lá!

Sobre o critério de notas, achei que não deveria incorrer no mesmo pecado dos jurados do desfile, que embolam as notas todas perto da máxima para não ficar mal com ninguém. O jurado generoso e bonzinho não é justo, a meu ver. Para que o bom sobressaia, é preciso escalonar as notas corretamente. Não é simpático, mas é justo. Desse ponto de vista, atribuí um único dez ao samba da Portela, que considero excelente: um samba que a gente aprende e canta sem esforço e quanto mais canta mais tem vontade de cantar.

No conjunto dos muito bons sambas deste ano temos o da Vila Isabel, com sua letra magnífica, o da Mangueira, que conseguiu sobreviver a uma gravação equivocada, e o do Salgueiro, que cresceu na minha avaliação desde sua vitória até o presente.  

No bloco abaixo deste eu incluí os sambas da Unidos da Tijuca, que tem a qualidade de uma melodia identificada com o estilo do homenageado, o da Beija-Flor, mais uma vez com  a marca forte da tradição da escola, e o da São Clemente, alegria e animação compatíveis com o enredo.

Imperatriz Leopoldinense é Mocidade Independente apresentam sambas medianos, candidatos a servir de trilhas a desfiles arrastados. Tomara que eu me engane. A União da Ilha fundiu dois concorrentes para chegar a um resultado um tanto híbrido, como em geral acontece nesses casos, sem um caráter próprio, o que nunca é bom. Mas ainda assim um pouco superior às obras apresentadas por Grande Rio, Renascer de Jacarepaguá e Porto da Pedra, em que os compositores tiveram de se esforçar muito para lidar com enredos que não dão samba. E com resultados bem fraquinhos.  

Pronto, nem doeu tanto assim... Espero pelos comentários dos leitores, sempre cheios de paixão e arrebatamento quando se trata deste tema.

Comentários (10)

Sávio Munhoz

Membro SRZD desde 29/09/2011

17/01/2012 14:56:49

Ótima análise, Rachel. Tenho opiniões adversas as suas em relação ao samba da Portela, que pela segunda vez consecutiva está apostando em três refrões, sendo que o terceiro é corrido. Achei confuso. Outra característica que notei foi a da, já tradicional, acelerada dos versos. O que me pertuba um pouco, pois sou prestigiador da boa composição e quando reparo um samba de tempo iregular sinto que há uma obrigação do compositor unir tanta informação no samba que falta-lhe espaço. Perde-se aí, o lirismo de bamba. Arlindo tem a característica de se adaptar às estruturas dos sambas das escolas em que vai compor. Digamos que ele continua bastante profissional. Eu fiquei muito feliz com o samba da Salgueiro por um todo, pois ele não fica na linha narrativa de contar uma história. Ele brinca, muda de tempo verbal diversas vezes, incorpora o eu nordestino, mergulha de forma impecável no enredo. E a ritimia é perspicaz, contemporânea e festiva. Acho ser o melhor samba do ano.

Aline Said Pessoa

Membro SRZD desde 23/08/2011

12/01/2012 23:13:39

Rachel, comente os sambas do Acesso, sobretudo a sua opinião sobre o maravilhoso samba do nosso Império Serrano.

Glória Gomes

Membro SRZD desde 12/01/2012

12/01/2012 12:40:58

Mesmo não indo "fundo" na sua avaliação, foi certeira no que escreveu. Eu sou Vila Isabel, amo o samba da minha escola, ele me arrepia, mas acho que o da Portela esse ano está um pouco à frente. Pra mim Mangueira e Salgueiro estão atrás de Portela e Vila. Como simples foliã, só consigou ouvir cinco sambas do cd, Manga, Vila, Sal, São Clemente (samba engraçado, divertido) e Portela (na ordem do cd). No mais dá vontade de dar skip. Tb acho que a Imperatriz vai arrastar, além de ser um samba chato, vem depois da Portela que vai arrebentar. Parabéns Rachel!

LEO

Membro SRZD desde 17/07/2011

10/01/2012 11:09:04

A verdade é que esses avaliadores são torcedores de uma ou outra escola, e como bons torcedores arrastam a brasa pra si. Por isso muitos desses comentários já falharam e o resultado do carnaval é totalmente diferente. São opiniões particulares, só isso.

julio_san

Membro SRZD desde 13/04/2009

10/01/2012 09:46:31

É Rachel talvez o seu medo de comentar sobre sambas de enredo, publicamente, devesse continuar imperando, você gastou mais linhas com justificativas do que com a sua opinião propriamente dita.

Jada

Membro SRZD desde 10/01/2012

10/01/2012 07:48:07

Samba é aquele que acomunidade abraça como seu hino,e entra na avenida e dá um show,O povo cantando e evoluindo. Não posso dizer que um samba é bom se a propria comunidade,não abrçar esse samba ,na avenida e a escola passar morta.por isso é que falo a minha escola abraçou o seu hino e achamos o nosso samba bom demais,

Jada

Membro SRZD desde 10/01/2012

10/01/2012 07:24:52

Samba bom,é aquele que a comunidade desenvolve bem ele na avenida quando a escola,entra.Aí dá para se tre uma análise melhor.

Jada

Membro SRZD desde 10/01/2012

10/01/2012 07:23:37

O samba para mim só e visto se é bom,na avenida,pois tem sambas muito bom,chega na avenida ninguém canta,acaba ele não sendo o que se esperava.Sou da Renascer de |Jacarepaguá,e acho meu samba muito bom,porque a comunidade agarrou ele,canta muito em nossos ensaios.E tenho certeza que na avenida será bem desenvolvido.Ele cresecerá muito quando a escola entrar. para mim isso é o que interessa ,e na hora do desfile a comunidade cantar e desenvolver bem o samba. Isso se pode dizer se o samba foi bom ,ou nãp para poder ser julgado.

carlos alberto machado

Membro SRZD desde 16/04/2009

10/01/2012 06:05:00

Rachel Concordo com seu comentário,inclusive para o dez da Portela.Entretanto considero o samba da Imperatriz muito bom,prejudicado pela memória do extraordinário samba do Império sobre Jorge Amado,até hoje subestimado na própria escola,onde raramente é cantado.Apesar do "nariz torcido" da maioria dos experts,gosto , tambem , do samba da Grande Rio.Na verdade spo se julga o samba no desfile,mas aí já é outra conversa...

Tom Filé

Membro SRZD desde 07/04/2009

10/01/2012 01:45:43

UÉ EO MELHOR SAMBA DO ANO NÃO FOI AVALIADO POR QUE ???? O DA PORTELA FICOU SEM AVALIAÇÃO SERÁ QUE ELE É HORS CONCOURS????