Um dia com Jamelão, o mestre que cantava e encantava
Cadu Zugliani | Cadu Zugliani | 06/02/2012 11h21
Sempre tive aquele respeito, quase medo, ao ver o mestre Jamelão na quadra da Mangueira na minha época de compositor. Sabe aquela sensação de estar vendo alguém que antes só freqüentava o seu imaginário? Pois era assim que me sentia. E ele ficava lá no cantinho dele, com os elásticos na mão e batucando, discretamente, em sua mesa enquanto esperava a hora de soltar a voz que nem a idade, nem as seguidas doenças conseguiram alterar. Me lembro que, durante as eliminatórias para o samba de 2004, ele sumiu da quadra. Foi levado para São Paulo, onde seria mais bem tratado do grave quadro de diabetes.
Pensava que nunca iria realizar o sonho de ouvir um samba meu gravado pela voz do mestre dos mestres. Ganhamos o samba e a diretoria da Mangueira começou a montar um mega esquema para viabilizar a participação de Jamelão na gravação do CD. Foi gravada a base com o Clóvis Pê, cordas, bateria e nada de Jamelão. Os jornais chegaram a dizer que o mestre tinha uma amante em São Paulo... E o homem lá, preso a uma cama de hospital. Um dia, recebemos uma ligação do presidente Alvinho: "a voz será gravada em São Paulo". Arrepiamos. Seria o primeiro contato mais próximo com um grande ídolo. Fomos eu, Gabriel e Almyr, os parceiros do samba, Alvinho e Laíla para o estúdio.
Chegamos e o médico conseguiu uma saída rápida de Jamelão do hospital. Chegaram ao estúdio e foram recepcionados por uma equipe da Globo, o que fez crescer ainda mais o mau humor de Jamelão, que disse que só gravaria se a equipe fosse embora. Laíla conduzia os passos do Mestre. Ele sentou no estúdio, ficou escutando a gravação guia, pediu para tirar a voz do Clóvis e seguiu ouvindo a melodia. Aí começou um espetáculo inesquecível: como se a boca fosse um instrumento, ele pediu ao Gabriel que tocasse as notas no cavaco e foi afinando a voz, nota por nota. Confesso que, pode até ser normal, mas nunca tinha visto nada igual.
E aí começou a cantar, frase por frase, sem nenhuma pressa, durante horas, e comandado com grande paciência pelo Laíla. Da metade para o final da gravação, já bem mais solto e animado, ele brincava imitando o trem, brincadeira que ficou na gravação original. Pronto. Sonho realizado. Nosso samba ganhou alma na voz de Jamelão. Depois disso, o contato se estreitou e várias outras histórias nasceram. O meu respeito e carinho por Jamelão cresceram e já não enxergava mais aquele senhor carrancudo de quem muitos, inclusive eu, tinham medo. Vai chegando o carnaval e está na hora de ouvir de novo a gravação original para tentar diminuir um pouco a saudade da melhor voz que o carnaval conheceu.
martha mello martins
Membro SRZD desde 14/02/2012
16/02/2012 15:23:08
Ao ser perguntado, por um radialista, na final na quadra da Mangueira, qual seria o samba que deveria ganhar naquela disputa, Jamelão, com seu humor habitué respondeu: Você não está ouvindo não? Esse aí que está tocando. Era o samba do Cadu. Sei porque estava lá.




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