Análise dos desfiles das escolas do Grupo de Acesso A

Hélio Ricardo Rainho | Hélio Ricardo Rainho/Carnaval | 21/02/2012 21h06

O Novo Sambódromo deu pontapé inicial nos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, com sua temporada mista de inauguração e (desagradável) devolução de dinheiro a quem adquiriu ingressos e encontrou setores não prontos (imaginem o Maracanã na estréia da Copa... isto é Brasil!).

Descasos e desgovernos à parte, tivemos uma noite de desfiles onde nenhuma escola disparou frente às outras. Foi um desfile equilibrado onde, a meu ver, quatro podem aparecer como favoritas ao título. Sigo minha análise para apontá-las gradualmente. A marca d Grupo de Acesso 2012 foram os "enredos arremedados", ou seja, escolas recorrendo a muita "elucubração" para tentarem montar uma sinopse que "justificasse" suas apresentações ou homenagens. Em alguns casos, o exagero na forçação de barra desqualificou o desfile.

A abertura da noite coube à carismática Paraíso do Tuiuti, essa simpática escola de São Cristóvão. Mas não foi um desfile feliz. O erro inicial, a meu ver, foi colocar Clara Nunes num elevado tripé - logo ela, que sempre desfilou ao chão, sorrindo e bem perto do povão. Com isso, a escola deixou de consolidar seu apelo ao público, que certamente adoraria ver a ótima performance de Patrícia Costa evoluindo ao chão. Um bom trunfo de harmonia e de comunicação que, infelizmente, não foi aproveitado. A comissão de frente, embora fugindo da obviedade que seria qualquer temática afro, também pareceu muito pretensiosa na concepção dos "anjos mestiços", apesar da boa coreografia. Fantasias e alegorias também vieram abaixo do padrão das escolas seguintes. Enfim, faltou na Tuiuti aquilo que sobejava em Clara Nunes: a alma guerreira.

Após a Tuiuti, a Acadêmicos da Rocinha levou suas praças à avenida. Teve uma apresentação com enredo mais objetivo e mais didático, muito embora não contagiante. As alas cantavam bem o samba, enquanto o casal de mestre-sala e porta-bandeira Diogo Fran e Ana Carolina evoluía com elegância e simpatia. A ala que representava a quermesse, trazendo homens vestidos de beata, a ala dos sem teto e uma outra com os mendigos do praça, davam um tom de humor bem dosado ao desfile, que trouxe ainda uma divertida versão para Dilma Houssef no carro da Praça dos Três Poderes. A Rocinha trouxe seu costumeiro bom gosto para alegorias e fantasias, mas também não causou um efeito mais relevante na plateia. Fez uma apresentação digna, mas não exatamente competitiva.

Foto: Wilson Spiler

Foi seguida pelo Estácio de Sá... o Velho Estácio, sempre uma emoção na avenida! Mesmo quando deixa de falar de Ismael e outros bambas para falar de Luma de Oliveira. Entende-se que um enredo deva ter fio condutor e concretizar sua proposta na avenida. Apesar da grandiosidade e da empolgação, sustentadas por excelente chão de escola e por uma poderosa bateria, infelizmente isso não aconteceu. O tema pareceu simpático, mas não sustentou efetivamente um enredo. Como já se podia esperar, trazer as mais variadas expressões do carnaval no país (timabaleiros, blocos afro, cordões etc) para a avenida para "cortejarem a rainha Luma" acabou soando um "remendo" estranho e repetitivo. Louvável e sempre prazeiroso, o Estácio fez sua festa particular com Luma, de fato uma beldade. Mas não pareceu convencer na execução de sua proposta.

A Inocentes de Belfort Roxo foi a primeira escola a mostrar um desfile mais elevado, digamos assim, em termos de competição, na noite. Surpreendentemente rica, com belíssimas alegorias, realizou sua "ópera caleidoscópica" propondo uma interessante releitura da formação do Brasil. O enredo tinha cunho histórico, mas não perdeu os tons e as cores de ousadia. A escola passou animadíssima, derramando brasilidade na avenida. Apesar disso, muitas alas passavam sem sequer balbuciar o samba, com pessoas conversando ou (ops!) tirando fotos! Talvez lhe tenha faltado um pouco mais de facilidade na leitura do enredo para que aumentasse a interação com o público. Wagner Gonçalves mostrou bom trabalho plástico e a bateria foi um dos destaques.

Passou, então, a primeira de minhas quatro favoritas, a Império da Tijuca. Parece que cantar o orgulho tijucano tornou-se uma especialidade dessa tradicional escola. O refrão que afirmava esse orgulho explodia na avenida e contagiava arquibancadas. Emocionante a passagem da escola pelo camarote da vizinha coirmã, Unidos da Tijuca, com trocas de afagos e muita fidalguia entre as duas comunidades. Severo Luzardo foi muito feliz nas fantasias e alegorias, contou com muita propriedade se enredo sobre universos utópicos criados pela mente humana. Fez da abstração um enredo concreto, coerente, e apresentou o primeiro samba envolvente e contagiante daquela noite. A bateria também foi um destaque. O chão da Império da Tijuca e a graça com que evoluiu na pista foram a tônica de um desfile muito bonito, como há muito não se via pela respeitável escola tijucana. A comunidade da Formiga foi, de fato, imperial!

Veio, a seguir, mais uma grande favorita. A Unidos do Viradouro foi, plasticamente, a melhor escola a se apresentar no Acesso. Não fosse Alexandre Louzada o seu carnavalesco. Os niteroienses mostraram um belíssimo conjunto de fantasias e alegorias. A comissão de frente foi a primeira a causar impacto na avenida: interativa, criativa, debochada e muito adequada ao homenageado da vez, Nélson Rodrigues. O enredo passou com extremo didatismo e muita originalidade, embora não fosse um tema inédito na avenida. Alas criativas como as desocupadas na janela, os suicidas, o "sobrenatural de Almeida" e o futebol fizeram grande sucesso. Uma bateria portentosa e uma linda evolução do casal de mestre-sala e porta-bandeira Marcinho e Alexandra. A Viradouro desenvolveu muito bem seu enredo, fazendo o que se espera de uma "ópera de rua" como é a escola de samba: contou uma boa história, com nuances criativas, e contagiou o público. Tivesse um samba melhor, o resultado lhe pareceria ainda mais satisfatório.

Foi seguida pela Acadêmicos de Santa Cruz. Que pareceu traçar um caminho semelhante ao do Estácio: enxertar elementos de um segundo enredo (neste caso, a história do rádio) para "conseguir" manter um discurso de homenagem a seu escolhido (neste caso, o radialista Antonio Carlos). Partir da história da radiodifusão para chegar ao homenageado acabou constituindo um devaneio muito distante, como sugeriu a comissão de frente, que representava as ondas eletromagnéticas. A fantasia dos integrantes também não sugeria exatamente o que dizia ser, apesar da bela coreografia. Com todo respeito a quem concebeu o enredo, não sei se homenagear uma figura tão relevante do rádio deveria ter se restringido tão somente a falar de sua profissão. Faltou uma abordagem mais pessoal, que só apareceu na homenagem a América FC, seu time de coração. Ficou uma sensação de que o enredo era uma homenagem ao rádio e que Antonio Carlos era um personagem (embora único) dentro desse tema. Fantasias e alegorias apenas corretas, um samba sem muito apelo e a competente bateria de sempre culminaram em um desfile apenas regular.

Até que desceu a Serrinha! O glorioso Império Serrano encheu a avenida de emoção e paixão. É louvável ver uma escola tão sofrida, tão penalizada, por vezes tão injustiçada, subir a avenida passando por cima de dores, desconsolos, feridas e mazelas. Ao cantar a força de um de seus mais ilustres baluartes, o Império comoveu-se e comoveu a avenida. Entrou com um canto forte, teve seu nome gritado com respeito e afeto nas arquibancadas. Enfim, chegara a emoção! A audiência parecia empurrar a escola a seu lugar de direito, que é o "Olimpo" do Grupo Especial. O samba foi cantado por toda a escola e pelas arquibancadas. Mauro Quintaes não repetiu o virtuosismo estético de Alexandre Louzada, mas cumpriu com excelência sua tarefa de descrever um enredo com começo, meio e fim. As fantasias e alegorias tinham porte, acabamento e fácil leitura. O presidente Átila cumpriu sua promessa de engrandecer o Império novamente, e a emoção foi garantida por uma harmonia irrepreensível. Os agogôs da Serrinha mais uma vez estrondaram na avenida. E não será nenhuma surpresa se o Império Serrano - também uma de minhas favoritas - for aclamado pelos jurados como Dona Ivone foi na avenida!

Fechando a noite, já quase de manhã, a Acadêmicos de Cubango reiterou o orgulho de Niterói, passando como minha quarta favorita. Seu enredo histórico sobre o Barão de Mauá seguiu a regra do didatismo sem apelar para inovações. Jaime Cezário foi muito feliz por ter dado corpo e grandeza a um tema que sugeria esse porte. Foi uma bela apresentação de fantasias e alegorias, todas de fácil leitura e grande impacto. Provavelmente a escola mais luxuosa da noite. Fechou a maratona em alto astral e também pintou forte entre as favoritas.

O Acesso continua mantendo em cima a bola dos desfiles. Foi-se o tempo de apresentações pobres e desinteressantes. Guardadas as exceções, teve-se uma noite em grande estilo, honrando os setores cheios e a presença animada dos espectadores, que não saíram decepcionados, a não ser pelo vexame histórico da não-entrega de lugares já pagos. Um atestado de incompetência para quem quiser dividir essa conta.

Consolidando minha análise, foi uma noite imperiana e niteroiense. Diria que Império da Tijuca, Império Serrano, Viradouro e Cubango fizeram as melhores apresentações. Destacando que Viradouro foi esteticamente a melhor e a mais emocionante de todas foi o Império Serrano.

Meus parabéns e meu carinho a todas as escolas pelo empenho, pelo espetáculo e pela graça de suas comunidades. Respeito muito essa gente bamba que risca o chão!

Agora é com vocês, jurados!!!

Twitter @hrainho

Comentários (10)

Rubem da Silva Moreira Neto

Membro SRZD desde 04/07/2011

01/03/2012 17:04:47

não vi o desfile do acesso a,mais acho que o choro ano passado foi bem maior,me parece que o resultado não foi tão injusto como alguns querem fazer parecer.

antonio carlos

Membro SRZD desde 23/02/2012

23/02/2012 22:06:23

Mais uma vez meteram a mão na nossa Viradouro. o samba continua, contigo sempre Viradouro.

fabian

Membro SRZD desde 05/01/2012

23/02/2012 17:12:04

tava tudo armado.

Mauricio Santos

Membro SRZD desde 01/02/2011

23/02/2012 11:16:22

É complicado, as pessoas esperam sempre que uma escola de nome e trdição ganho o carnaval, eu vou dizer aqui o que eu falei no ano passado quando criticaram o título da Renascer de Jacarepaguá, " Hoje em dia nome e tradição não ganha carnaval" a Inocentes de Belford Roxo no ano passado errou muito e ficou em 8º lugar, o presidente saiu furioso da apuração e mandou muitos funcionários da escola embora, em seguida contratou um carnavalesco de peso que era da Mangueira: o Wagner Gonçalves, contratou para coordenação da ala de passistas, o Carlinhos do Salgueiro, contratou um casal de MP que eram da Grande Rio, escolheu um enredo patrocinado, escolheu um samba da parceria de Claudio Russo campeão da Beija Flor, Renascer de Jacarepaguá e outras, clocou efeitos de luzes e especiais em todos os carros. então o resultado não podia ser diferente.

William Ferreira

Membro SRZD desde 23/05/2010

22/02/2012 20:00:12

Depois do título da Renascer no ano passado, sabia que a próxima seria a Inocentes. Sei que fez um bom desfile, mas as discrepâncias em relação as notas das concorrentes... fala sério! podia ser mais discreto e a clara intenção em afastar Império e Viradouro da briga, foi logo cedo evidenciado. Parabéns Inocentes! muito merecido é um prêmio a inércia dos que vê esse grupo com historinhas todo ano e deixa pra quem sabe um dia chegar a sua vez. E aí, quem será a próxima? Pelo menos já temos a rebaixada do grupo especial no ano que vem! Bom passeio a marmelada é boa e calda do acesso e ótima pra se lambuzar.

ALBERTO FORT

Membro SRZD desde 17/09/2011

22/02/2012 18:23:32

todos nós sabíamos que este enredo era arriscado, mas os olhos da cobiça não se conteram e agora taí o resultado negativo de um escolha desagradável o pior foi ver o resulatdo dos julgadores que deram notas do enredo maiores que a do samba enredo sinal que o samba estava mais complicado. o povo de são gonçalo agradece ao Bocão da V.isabel o Claudio russo da renascer ao Fábio Costa com suas artemanhas de se envolver em tudo quanto é escola e os compositores da P.da Pedra que assinaram o samba tiveram a infelicidade de terem seus nomes caíndo sem tirar uma nota positiva, aprendam a fazer samba e deixem de conmprar é fácil e mais valoroso ao próprio poeta que coloca a cabeça no travesseiro tranquilo pra dormir. ficou feiaço na foto essa parceiria campeã do tigre. agora levem um samba bom e que a comunidade venha abraçar até por que teve samba só que levaram este ruím. vejo vocês no acesso em 2013! fui!!!!!!!!!!!!

Sérgio Duarte

Membro SRZD desde 22/02/2012

22/02/2012 12:22:38

Olha amigos do SRZD,sempre fui fã desse site,embora muitas vezes não concordo,com as opiniões aqui exposta mais devendo o direito de todos dizerem aquilo que pensam,eu que sou fundador de uma escola em Teresopolis, já passei por todos os cargos existente nela, sei as dificuldades que os dirigentes passam para colocar uma escola na Avenida,por nós dirigentes nossas agremiações sairiam lindas e maravilhosas e ganhariam de todas as concorrentes, mais financeiramente não é isso que acontece..Parabens a todos as agremiações que desfilaram no grupo de acesso,por desfilar vcs já são vitoriosos, quem ganhar vai ser por detalhese que ganhe quem errou menos...parabens a todas. saudações Imperiana.

Rodrigo da Costa Coutinho

Membro SRZD desde 02/12/2009

22/02/2012 10:43:05

Helio Ricardo, muito bom passar por aqui e poder ler algo super parecido com o que vi na Sapucaí. Tenho uma escola de coração e, ao mesmo tempo AMO todas as outras agremiações em IGUALDADE. Sofro quando o carro de uma quebra, entra com acabamento ruim, quando algo que não era pra acontecer... acontece. A garra e o carinho com que MILHARES de pessoas abração suas escolas é contagiante. Também aponto os dois Impérios e as duas escolas de Niterói como favoritas ao título. Não vi a Inocentes apresentar um carnaval digno de campeonato. Estava bonita, SIM. Mas não levou nada além de cores e um pouco de grandiosismo ao espetáculo. Faltou um pouco de conteúdo. Dona Ivone emocionou o público por ser aquilo que ela é. UMA SAMBISTA DE CORAÇÃO E ALMA! A Viradouro me fez chorar de emoção e manter em meu peito a esperança do retorno ao Especial. A Cubango, escola que gosto bastante também, não foi nem sombra da Cubango de 2011, porém fez um carnaval competitivo e está entre as cabeças também. Que os jurados tenham aplicado notas coerentes e sem nenhum tipo de pressão para favorecer A ou B, como foi no ano de 2011. Aquela VERGONHA não pode ser repetida. Abraços e... simboooooooooooooooora Viradouro!

Anísio

Membro SRZD desde 22/09/2009

22/02/2012 04:03:05

Acho muito importante o fato dos desfiles do Grupo A estarem evoluindo a níveis bem interessantes. Creio que a presença de escolas tradicionais neste grupo tem feito com que as outras se desdobrem em vencê-las e, para isso, faz-se necessário ter maior empenho no desenvolvimento de seus enredos. Para nós que tanto gostamos de samba, fica a felicidade por ter mais uma opção de desfiles a serem degustados. Com relação à análise dos desfiles das escolas do Grupo de Acesso A, concordo plenamente com as favoritas citadas. Império Serrano e Viradouro fizeram desfiles para ganhar e Cubango veio pra dar trabalho e pode surpreender. Destaco o desfile e o samba da Inocentes de Belfort Roxo... Muito bons!!!

MARCELO ALVES

Membro SRZD desde 07/04/2009

22/02/2012 02:49:40

Esta é uma análise que merecemos, como apaixonados pelo samba: correta, isenta e, obviamente, de quem, assim como eu, dedicou horas da sua vida para assistir ao desfile do acesso A - o que faço há mais de 15 anos. Pela ordem de apresentação: Inocentes, Viradouro e Império, cada uma com seu ponto forte. Agora é com os jurados. Parabéns!