A sacralização do voto interessa, e muito, à minoria que domina os assuntos do Estado e, consequentemente, o dinheiro de todos os cidadãos.
O Brasil é muito particular neste aspecto.
Enquanto o mundo louva a democracia, tendo como símbolo as eleições, o Brasil carnavaliza tudo: transforma o voto num sacrossanto e único ato para ombrear a nação com o mundo civilizado.
Então, torna o voto obrigatório e desenvolve a urna eletrônica, a ponto de alguns brasileiros ficarem embasbacados com o sistema "rudimentar" dos Estados Unidos - grande e inconteste potência mundial.
O raciocínio é simples: como não haverá democracia de verdade, eleva-se ao máximo o símbolo da escolha livre dos governantes pelos cidadãos.
Chega-se ao ponto de, cinicamente, um número considerável de pessoas dizer que se alguém errar o voto agora - votar em quem perdeu - só terá outra chance daqui a quatro anos.
Como se votar fosse uma loteria: se você votar nos perdedores não terá representante no governo.
É como se um empresário tivesse que contratar funcionários de tempos em tempos, e alguém dissesse-lhe: se errar na contratação, só poderá corrigir daqui a quatro anos.
É um absurdo, mas é uma idéia que interessa à classe dominante.
Obriga-se uma massa oceânica a comparecer às urnas e legitimar os governantes que trabalharão, sempre, para os mesmos grupos.
O que realmente conta - o mesmo vale para o exemplo que citei do empresário - é a fiscalização cotidiana dos cidadãos, os "empregadores" dos homens públicos.
O resto é conversa fiada. Não importa se eu escolhi ou não o governante, o que interessa é se eu tenho como fazer pressão para que não trabalhe apenas para uma parte da sociedade.
É um crime o que acontece. A maioria da população é semialfabetizada - chegamos ao ponto de ter pessoas com curso superior na categoria de analfabetos funcionais - e obrigada a chancelar o esquema.
Democracia, em resumo é: acesso universal à educação, à saúde, à segurança etc. A tudo que os políticos prometem, eu suma.
Um cidadão que tenha essas necessidades satisfeitas saberá pressionar os homens públicos para trabalharem em favor de todos, sem sequer precisar fazer parte desta enorme e dispendiosa encenação, que é o voto obrigatório.
Voto vale mesmo como símbolo da escolha. O restante é a pressão cotidiana que os grupos favorecidos pelo dinheiro de todos sabem fazer, e muito bem.
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